‘Acústico de Quarto Vol. 1’ traz aconchego no lar | Perceba a promessa da MPB, Vanessa Cassidy

Acústico de Quarto é um EP que está pela internet e chama atenção por um doce cantar em melodias que embalam. Vanessa Cassidy sempre sonhou em fazer música, mas não tinha tempo, dinheiro e nem coragem pra isso. Contudo, aí está o EP Acústico de Quarto Vol.1. Segundo a cantora e compositora “não iria acontecer se não fosse a terapia, o trabalho, uma triste pandemia e a preciosidade do silêncio, de certa forma, o privilégio do silêncio.” Para ela foi um processo único e muito especial. Vanessa cantava desde a infância, mas comentou que no bairro do Rio de Janeiro onde mora, Curicica, arte não é algo muito estimulado e faltam opções. Porém, existe a internet.

“A internet, ela consegue ser ótima quando se trata em romper barreiras físicas e em dar voz. E não, eu não queria que fosse um Acústico, eu não queria ter que usar uma caixa de fósforo e também não usaria um violão emprestado, não foi porque achei legal, bonito, foi porque ou era isso ou não era. Se eu ficasse esperando ter dinheiro pra pagar músicos, estúdio, compreender as destrezas da produção musical, tocar elegantemente grandes músicas… Ignorância da minha parte talvez mas acredito que não iria sair tão cedo e possivelmente não teria essa conversa com vocês, assim como não me sentiria aliviada por colocar pra fora algo que pode e tem todo o direito de perder o sentido amanhã, sabe?”, declara Vanessa.

A cantora sentiu uma necessidade forte e não se deixou levar pelo medo nem “pela caixa de fósforo descompassada”. E completa: “se você ouvir vai entender que é simples, mas não foi tão simples assim, não me importar com os erros, com os ruídos, trocar o dia pela noite por causa dos passarinhos, do carro do ovo, dos latidos.”

Coragem

A artista disse que até poderia parecer simples, mas que existia a necessidade de uma coragem para se assumir cantora, mostrar para os amigos e o mundo. Atualmente, muitos perguntam como ela conseguiu, o que acaba por surpreendê-la. Ela sente que essa sua iniciativa estimula outras pessoas a fazerem o mesmo. Ainda por cima, questionei Vanessa se a música dela não seria como cheiro de mato num mundo urbano. “Adorei! Vou falar isso se alguém me perguntar. Pode ser, eu moro em Curicica, Jacarepaguá, zona oeste do Rio de Janeiro. O avanço urbano se deu dentre esses poucos anos advindo de uma série de fatores: especulação imobiliária, olimpíadas, verticalização da cidade e tudo mais. Então, na realidade, antes desse momento, aqui tudo era mato, meus pais chegaram por essas bandas e dava pra ver a mata de beira da praia, sabe?”, respondeu.

Vanessa Cassidy
Canções com aroma de mato

Ela ainda citou o termo que atribuíram a essa região: “O Sertão Carioca”, a partir de Magalhães Corrêa nos anos 30, e falou: “De repente, conheço a resistência da comunidade quilombola Cafundá Astrogilda e as maravilhosas cachoeiras do Parque Estadual da Pedra Branca. Eu ficaria horas falando sobre a cultura do mato, do mangue, que podem até justificar a baixada de Jacarepaguá como ‘fim de mundo’ por ser longe do centro e não tem como dissociar minha música desse contexto sócio-geográfico.”

Não calo

Diariamente, ela acorda e e vê um cajá-manga, mas lembra que, ao mesmo tempo, está numa cidade grande e cosmopolita. Então, Vanessa até aceita bem a colocação que fiz, de sua música ter certo aroma de natureza em meio ao caos urbano do Rio de Janeiro. Uma cidade que, ao mesmo tempo, já tem essa conexão com a natureza mesmo, seja como for. Entretanto, em meio a tudo isso, a arte queria sair de seu âmago.

“Desde pequena escuto muitos ‘cala a boca’ e tenho certeza que mesmo não querendo devo ter calado muitas bocas também, a vida tem dessas. É uma força, uma energia que vem de dentro como se fosse uma forma de sobreviver, lidar com o mundo, comigo e então por mais que eu entre na discussão se realmente devo cantar ou não sempre perco porque eu não consigo parar de fazê-lo.”

Lembrei de uma das músicas do EP, “Taioba” e entrei em alguns dos temas que a canção aborda. “As expectativas são perigosas né? A gente acha muita coisa sobre muita coisa e não durar pra sempre é muito importante. O tempo, quando bem trabalhado, pode te recompensar com algumas sabedorias interessantes, como essa de que durar pra sempre é besteira, mas a gente é besta mesmo e a gente, quase que por descuido, se permite viver em função dos sonhos”, fala Vanessa.

Clichê e inspiração

“A vida me inspira, meio clichê né? Clichê é ótimo, clichê é tipo uma ‘língua universal’, gosto desse achismo. Eu gosto de falar de tudo mas tive uma fase catastrófica em que só falava de expectativas. Acho que hoje falo da vida no geral, de trabalho, de transporte público, de paisagem, de opinião pública, de fetiche, todas as coisas da vida, da minha vida. Tudo é possível de ser dito e um dia não direi mais nada, menos trovadora talvez? Mais morta? A música é a onde eu falo descaradamente mesmo que sutil, afinal, na rua temos que tomar nossos cuidados, em todos os aspectos, então a música é onde eu grito minhas verdades, mesmo sussurrando.”, expressa Cassidy.

Além disso, Vanessa, para finalizar a conversa, fala: “Poucas são as certezas que carregamos na vida – principalmente a minha com suas singelas duas décadas – mas a minha certeza é que eu vou estar velhinha e comigo vou ter um violão nos braços. Porque é extensão do meu corpo, da minha mente. O ir pra onde é engraçado, eu não sei pra onde estou indo, me sinto que nem os peixinhos do filme Nemo que arquitetaram um plano genial de escapar do consultório do dentista mas aí, se encontraram dentro de um plástico-bolha na baía de Sidney, acho graça.”

“Se as pessoas vão ouvir minhas músicas, se eu vou poder finalmente sair do meu quarto, são perguntas que eu não sei responder. Mas eu nunca vou parar de fazer música. E mesmo que pare eu adoro me dar a liberdade de fazer essas juras, de falar sem medo palavras perigosas, os ‘nuncas’, os ‘sempres’, é um jeito romântico de levar a vida no início da vida, dos meus vinte e poucos anos.”

Aliás, ouça o EP Acústico de Quarto Vol.1:

Convenhamos, as músicas são deliciosas dentro de uma simplicidade natural e do bom gosto – da coragem.

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