Dirigido por Michael Shanks, Juntos é um terror que carrega uma metáfora um tanto óbvia, mas que se destaca pela criação de imagens memoráveis, grotescas e maravilhosas
Era uma vez um mundo onde os homens eram completos. Cada ser humano apresentava um único corpo com duas cabeças, quatro braços e quatro pernas. Com essa forma, alcançavam mobilidade plena, e um senso de confiança e plenitude tão grande que ousaram roubar o poder dos deuses. Indignado, Zeus os puniu, rompendo seus corpos ao meio. Desde então, cada metade vaga pelo mundo em busca de seu complemento, a alma gêmea que seria capaz de restaurar a sensação de completude.
Essa história, já explorada em diversas mídias, como na comédia romântica Você Nem Imagina (2020, Alice Wu), ganha uma nova dimensão quando observada sob o prisma do terror que Juntos proporciona. Ao transformar a busca pela alma gêmea em um pesadelo visceral, colocando em cheque a ideia de fusão amorosa, perna com perna, braço com braço, genital com genital, algo comum na intimidade de qualquer casal, se torna, quando exagerada, profundamente perturbadora. E assistir a isso na tela é algo que beira entre o desconcertante e o fascinante.
Estrelado por Dave Franco e Allison Brie, casal na vida real há quase 10 anos, o filme utiliza sua intimidade para potencializar a narrativa. A trama é simples, centrada em um casal em crise que, ao viver uma experiência assustadora, percebem que estão se fundindo em um, assim, antes tão separados, agora estão novamente juntos, como uma espécie de contos de fadas do horror.

Allison Brie em cena de Juntos- Divulgação Diamond Pictures Br
Há elementos clássicos do gênero aqui: o uso intenso de som, a presença de uma seita misteriosa, e cenas de body horror que rivalizam com as de A Substância (2024, Coralie Fargeat) e Titane (2021, Julia Ducournau), sem que seja necessário descrevê-las em detalhes, pois é melhor que o espectador as descubra por si mesmo.
A presença de Brie e Franco confere veracidade ao casal, e a direção de Shanks conduz a história com segurança estética: uma direção de arte caótica e ao mesmo tempo limpa, fotografia intimista, e uma edição marcada por cortes secos que surpreendem e, por vezes, provocam risos nervosos em sua audiência. O terror aqui é de imersão total, uma experiência sensorial que envolve o espectador do início ao fim.
A estrutura narrativa é simples a ponto de ser resumida em cinco minutos, com referências filosóficas que remetem diretamente a O Banquete (380 a.C, Platão). Além disso, a metáfora da alma gêmea é um pouco óbvia demais, e o “ponto de virada” ocorre antes do esperado, o que poderia enfraquecer o filme, caso Juntos não compensasse essas escolhas com uma junção entre horror e beleza visual, algo raro no terror contemporâneo, e usado de modo semelhante por Robert Eggers em Nosferatu (2024).

Dave Franco em cena de Juntos- Divulgação Diamond Pictures Br
O filme se destaca pelo uso de efeitos práticos incrivelmente orgânicos. O grotesco é tão bem coreografado dentro da narrativa que causa primeiro repulsa, depois estranhamento e, enfim, uma estranha sensação de alívio, prendendo o espectador num transe desconfortável até o momento exato de soltá-lo, fazendo com precisão, e construindo uma experiência cinematográfica única, baseado em puxar o espectador, levar até o clímax da tensão, e soltar de modo brusco, para novamente o atrair, até um final que dividirá opiniões. Sendo ao mesmo tempo puro, nojento, belo, e uma experiência que não será esquecida.
Juntos estreia no dia 14 de Agosto de 2025, com distribuição da Diamond Pictures.
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