Dirigido por Hikari, Família de Aluguel une humor, melancolia e afeto para discutir o vazio emocional de uma sociedade isolada e solitária
Entre tantos filmes exibidos no 27º Festival do Rio, das cinco produções que cogitei assistir no dia do meu aniversário, acabei escolhendo um que tinha certeza que me traria conforto, tanto pela temática das famílias encontradas, quanto pela presença de Brendan Fraser, um ator que vive uma renascença merecida após ter sofrido tanto nas engrenagens impiedosas da indústria cinematográfica.
Dirigido por Hikari, Família de Aluguel conta a história de Phillip, Fraser, um ator solitário e em dificuldades que aceita trabalhar em uma agência que oferece consolo e suporte emocional a quem desejar, interpretando papéis de pai, irmão ou até namorado dos contratantes, atuando como suportes emocionais para pessoas em necessidade.

Mari Yamamoto e Brendan Fraser em Família de Aluguel. Foto por James Lisle/Searchlight Pictures. © 2025 Searchlight Pictures. All Rights Reserved.
Esta premissa simples se desdobra em diversos caminhos narrativos, que Fraser abraça com orgulho e sem receio do ridículo: ora fingindo ser pai de uma jovem garota, ora atuando como jornalista para um idoso ator em crise. Assim, um homem que nunca teve um pai presente, passa a desempenhar este papel e, de certa forma, se torna um modelo paterno, ressaltando uma das mensagens centrais da produção: a importância do apoio mútuo e do conforto emocional que encontramos no outro, permitindo a criação de novos vínculos.
Em um mundo cada vez mais isolado, o ser humano busca meios de preencher ausências, sejam familiares ou afetivas. Não à toa, uma personagem fundamental para compreender Família de Aluguel é a garota de programa com quem Phillip desenvolve uma relação, e inevitável amizade, e como elaborado verbalmente: ambos oferecem um suporte para quem necessita, ela de forma física, e ele de forma emocional.
Falado em japonês e inglês, a produção alterna momentos de silêncio e contemplação com passagens filosóficas, reflexivas e cômicas, especialmente nas interações entre Phillip e Kikuo Hasegawa, interpretado por um excelente Akira Emoto. E esta união entre o americano, e o japonês, nunca soa destoante, afinal a ambientação no Japão é justificada por uma observação de Shinji, o líder da agência: o tratamento de questões mentais ainda é tabu no país, e a empresa de “aluguel” surge justamente para suprir essa lacuna, passando por um arco próprio ao longo da produção.
O principal conflito de Família de Aluguel é interno. Phillip, assim como os demais funcionários da agência, precisam lidar com as implicações morais de seu trabalho, ainda mais pelo fato que no fundo, também dependem dos “contratantes” para fugirem da própria solidão.

Brendan Fraser em Familia de Aluguel. Foto por James Lisle/Searchlight Pictures. © 2025 Searchlight Pictures. All Rights Reserved.
A fotografia e a direção de arte seguem uma estética limpa e discreta, acompanhando a jornada emocional dos personagens, e o foco está nas atuações, sobretudo na leveza de Fraser, e no roteiro sensível de Hikari, que transmite uma melancolia constante, sem jamais apagar o brilho ou a ternura da narrativa, resultando em um excelente “filme conforto”, que oferece lições sutis sobre afeto, responsabilidade emocional e as famílias que encontramos pelo caminho.
Em determinado momento da animação Orion and the Dark (2024, Sean Charmatz), a personificação da escuridão afirma que, quando todos dizem que você é algo, é difícil acreditar que pode ser outra coisa. Algo semelhante ocorre em Família de Aluguel: ainda que os personagens interpretem papéis, pai, jornalista, amigo, mesmo que por meio de fingimento, naquele momento eles apoiam e oferecem algo que o “contratante” necessitava, oferecendo um alento emocional.
Distribuído pela Verve, Família de Aluguel estreia nos cinemas no dia 26 de Fevereiro de 2026, sendo uma produção acolhedora que nos fará rir, chorar, e refletir sobre quem nós contrataríamos para preencher o vazio emocional que, no fim das contas, todos carregamos.
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