Dirigido por Emine Yildirim, Apolo de Dia, Atena de Noite é filme lento e reflexivo que revela uma forte mensagem e evidente amor pelo tema
Uma das minhas histórias favoritas de toda a mitologia grega é a de Apolo e Dafne, segundo o mito: Graças a uma brincadeira de Cupido, Apolo, deus da poesia, da cura e do sol, se apaixonou por Dafne, uma ninfa de beleza incomparável. Como o amor não foi correspondido, iniciou-se uma perseguição em que a deidade masculina e patriarcal persegue incansavelmente a jovem ninfa. Para protegê-la, os deuses a transformaram em um loureiro, que Apolo passou a considerar sua árvore primordial, finalmente obtendo, de modo simbólico, aquilo que tanto desejava.
Como amante e estudioso da mitologia grega, ao descobrir que a 49ª Mostra Internacional de Cinema de SP exibia um filme turco chamado Apolo de Dia, Atena de Noite, cuja protagonista se chama Defne, senti uma necessidade quase inevitável de assisti-lo, me surpreendendo com uma produção que apesar de alguns tropeços de ritmo, entrega reflexões sobre luto, pertencimento e finalizações, permeadas por uma poesia própria.
O filme acompanha Defne, uma órfã e médium de Istambul, que viaja à Grécia em busca de sua mãe, sem ter nada além de uma fotografia e o auxílio de três fantasmas: uma prostituta que deseja se reconectar com a filha, um revolucionário que quer aprender telecinese e uma mulher da Roma Antiga que esqueceu sua própria língua.

Cena de ‘Apolo de Dia, Atena de Noite’- Divulgação Mostra SP
Cinematograficamente, o filme se apoia fortemente nas paisagens e no clima mediterrâneo, explorando arquitetura, ruínas, o oceano e o pôr do sol. Planos de natureza se sucedem: ora vazios, ora narrativamente significativos, reforçando a composição dos personagens, levando a uma jornada que não é clássica, mas existencialista e reflexiva, demorando realmente a engatar, e levando a uma sensação de tédio. Ainda assim, Apolo de Dia, Atena de Noite não teme seu próprio tempo, com cada personagem recebendo seu desfecho, nem sempre perfeito ou satisfatório, mas sempre prazeroso de acompanhar.
Talvez por meu amor à mitologia e pelo desejo de conhecer a Grécia, eu tenha apreciado o filme mais do que alguns colegas, porém, acredito que seu mérito vá além disso. Não senti cansaço, e sim fascínio diante deste grupo de desajustados, vivos e mortos, que buscam conclusões em um universo de ruínas e um oceano aparentemente infinito, refletindo que agora é assim que pretendo fazer minha passagem: levado pelas ondas após ter cumprido o que precisava, encontrando finalmente a paz.
A narrativa une comédia, drama e espetáculo visual e reflexivo, explorando relações abusivas, como a da dona da pousada atormentada pelo fantasma do marido morto, e vínculos afetivos profundos, como os de Defne com Hüseyin, sempre fraternais e de apoio, e entre Defne e sua mãe Samiya, que demora um pouco mais do que deveria para ocorrer, mas, vem com força.
A trilha sonora, focada em piano e instrumentos suaves, fortalece o clima de realismo mágico. Defne não se assusta com os fantasmas, eles apenas surgem, e o foco não é o medo ou a justificativa de porque isso ocorre, mas a busca de uma mulher que nunca se sentiu acolhida, tentando encontrar conforto em uma mãe distante, e encontrando significado ao ajudar 3 fantasmas a também terem paz em um mundo que parecia tão frágil.

Ezgi? Çeli?k em cena de “Apolo de Dia, Atena de Noite”- Divulgação Mostra SP
Em alguns momentos, a direção de arte se dilui na iluminação natural, e certos personagens se perdem nos cenários, mas o cuidado é perceptível, especialmente na comparação entre Istambul e Grécia, nos closes, nos tons da fotografia e nos detalhes do cabelo de Defne, demonstrando uma qualidade técnica que ainda é imatura, porém, surpreendente para uma primeira direção de longa metragem, principalmente no uso do foco.
No fim, Apolo de Dia, Atena de Noite não é um filme para todos. Mas quem estiver disposto a embarcar lentamente neste “tour pela Grécia Antiga”, em uma história recheada de poesia, mitologia e retratos de família e amor imperfeitos, encontrará um trabalho com força para transmitir sua mensagem.
Vencedor do prêmio de melhor filme da seção Asian Future no Festival de Tóquio, o longa foi exibido em uma sessão lotada na Mostra de SP, com mais exibições nos dias 22, 23 e 24/10, com ingressos disponíveis no site da Velox Tiquets.
Siga-nos e confira outras dicas em @viventeandante e no nosso canal de whatsapp !



