Em meio à poeira das estradas e ao som do jazz, Jack Kerouac e Allen Ginsberg trocaram cartas que iam muito além da amizade. Nelas, dois dos principais nomes da geração beat buscavam entender o mundo — e a si mesmos — através do budismo. Um estudo da Universidade Federal do Paraná (UFPR), conduzido por Fábio Vinicyus Gessinger sob orientação da professora Renata Senna Garraffoni, analisa essas correspondências, escritas entre 1952 e 1956, para revelar como o pensamento oriental ajudou a moldar a contracultura e questionar o american way of life.
Em uma das cartas, Kerouac instrui Ginsberg a meditar: “Expire completamente o ar e encha os pulmões o máximo que puder… ouça o som do silêncio.” A serenidade que o autor de On the Road descreve era, na verdade, uma tentativa de resistir ao barulho ensurdecedor da sociedade de consumo que tomava os Estados Unidos do pós-guerra.
O trabalho apresentado na 16ª Semana Integrada de Ensino, Pesquisa e Extensão (Siepe) da UFPR mostra que, para Ginsberg e Kerouac, o budismo era mais que uma filosofia espiritual — era uma forma de insurgência. Inspirados por textos sagrados e mestres orientais, os autores reinterpretaram ensinamentos milenares em busca de uma vida mais livre, criativa e desprendida do capitalismo e da moral conservadora que dominavam o Ocidente.
Enquanto o país celebrava prosperidade e estabilidade, os beats buscavam vazios e abismos. Em suas obras, o budismo surge como caminho para a “mística da transgressão”, expressão usada pelo poeta brasileiro Cláudio Willer para definir a união entre espiritualidade, liberdade e rebeldia. A recusa à estabilidade se tornou, assim, um ato político e poético.
Entre o Oriente e o Ocidente: Budismo, contracultura e rebeldia espiritual
Segundo Gessinger, o fascínio dos escritores pelo Oriente se mistura à idealização descrita por Edward Said em Orientalismo (1978). Mesmo sem conhecer a Índia, Kerouac e Ginsberg viam no budismo uma alternativa ao individualismo e à alienação ocidental. “Eles olham para outras formas de viver além do materialismo, inspirando mudanças estéticas e existenciais”, explica o pesquisador.
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Nas cartas, práticas como o dhyana (meditação profunda) aparecem como exercícios de autoconhecimento e amizade. “Essas trocas revelam um modo de vida pautado na abertura ao outro e na experimentação espiritual, um contraste direto com o isolamento do mundo capitalista”, acrescenta Gessinger.
O estudo também destaca a presença de autoras beat como Diane di Prima, Joanne Kyger e Lenore Kandel, que expandiram o olhar espiritual e poético da geração, afirmando que o despertar não era apenas masculino — era humano e coletivo.
Fonte: ciencia.ufpr.br


