Dirigido por Michael Gondry, Maya: Me dê um título utiliza a animação cut-out para construir diversos universos lúdicos e mágicos que simbolizam a união entre pai e filha.
A arte possui o poder de unir pessoas distantes, e quando se juntam duas mentes tão criativas quanto a de Michael Gondry, diretor de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004), e a imaginação aparentemente infinita de sua filha Maya, as possibilidades são inúmeras. Esta união permitiu um filme caótico e, ao mesmo tempo, extremamente doce na forma de Maya: Me dê um título.
A produção transmite com maestria o amor que esse pai sente pela filha, mas, ao ser estruturado em diversos episódios isolados, acaba cansando o espectador pela repetição excessiva de suas ideias.
Fazendo uso da animação stop-motion no estilo cut-out, Gondry constrói pequenos contos que preenchem pouco mais de uma hora de duração. Os episódios transitam por universos variados, que vão do fundo do mar, ao centro da terra e retornando a uma caótica metrópole. O elo entre todos eles é o protagonismo de Maya, que não apenas fornece as ideias para as histórias, como também as protagoniza e dubla a si mesma na versão original.

Cena de “Maya: Me dê um título”- Divulgação
Entre esses segmentos animados, surgem momentos em live-action nos quais vemos Maya ocupando, pouco a pouco, uma sala que antes estava vazia. Esses trechos funcionam como necessários respiros narrativos. Acompanhamos a menina dos três aos cerca de dez anos, percebendo seu crescimento criativo afeta diretamente a construção dos universos que se tornam cada vez mais complexos e coloridos.
As histórias atraem o público infantil e juvenil, ao mesmo tempo em que despertam a curiosidade de adolescentes e adultos. Ainda assim, mesmo entendendo que a produção é uma forma de Gondry se manter próximo da filha apesar da distância física, a repetição dessa anarquia criativa dilui o impacto e faz o espectador perder o necessário interesse.
O contexto criado por Gondry remete à desenhos clássicos exibidos nas manhãs de sábado. Assistindo ao filme em outra fase da vida, é possível compreender seu apelo e sua tentativa de manter viva a criança interior. Alguns esquetes inserem simbolismos e até comentários políticos, mas o alicerce da obra permanece sendo o entretenimento e o retrato da paternidade, afinal, Maya é constantemente colocada em posições de heroína, incentivada a nunca abandonar sua veia criativa. Ainda assim, fica a pergunta: o que isso acrescenta, de fato, para o público?

Cena de “Maya: Me dê um título”- Divulgação
É comum que artistas utilizem a arte como forma de extravasar sentimentos internos, sejam eles desejos, angústias ou demonstrações de afeto. O talento de Gondry como contador de histórias é inegável, criando situações que só poderiam existir neste universo tão lúdico. No entanto, quando a obra se fecha demais em sua intimidade, o espaço para a plateia diminui. Caso Gondry não fosse um diretor consagrado, uma produção de esquetes pensada quase exclusivamente para sua filha alcançaria o mesmo destaque?
Em última análise, Maya: Me dê um título é uma produção independente surpreendente pelo cuidado com sua animação cut-out. Ainda assim, trata-se de uma obra muito mais especial para o próprio Gondry do que para o público em geral. Embora encante e emocione em diversos momentos, o filme termina deixando uma sensação de esgotamento, como se pedisse algo realmente inovador, ou ao menos um fluxo narrativo mais dinâmico.
Distribuído pela Filmes da Mostra, Maya: Me dê um título estreia nos cinemas em 2026.
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