15 de março de 2026. Exatamente 28 anos após a morte dessa eterna potência brasileira chamada Tim Maia. Foi justamente nesse dia que, sem ter essa noção, fui assistir a Tim Maia – Vale Tudo, o Musical.
Confesso que, quando a peça começou, não entrei nela de imediato. O início me pareceu um pouco lento, como se demorasse a engrenar. Talvez seja pela canção escolhida. Por alguns minutos fiquei com aquela sensação de que talvez o espetáculo não fosse me conquistar. Ainda bem que eu estava completamente errado…
Sou fã de Tim Maia desde criança. Cresci ouvindo suas músicas, tinha vários CDs de coletâneas de grandes sucessos — olha eu revelando a idade. Sempre fui fascinado por aquela voz potente, inconfundível. A forma de cantar o amor, o soul, o suingue. Mais tarde, já adulto, redescobri esse amor quando mergulhei na fase Racional. Naquela época, ficou Tim longe da bebida e das drogas, dessa forma, a voz parecia ainda mais limpa, mais luminosa.

Foi também uma fase curiosa da vida dele. Tim se dedicou profundamente a uma religião, até se decepcionar e abandonar tudo. Como acontece tantas vezes, o problema não era exatamente a fé, mas o ser humano por trás dela. Quando descobriu que o líder espiritual se envolvia sexualmente com fiéis, aquilo foi a gota d’água. No musical, essa passagem aparece rapidamente, mas de maneira bonita: todo o elenco vestido de branco enquanto Tim canta pérolas do período racional.
Depois daquele começo que me deixou desconfiado, especialmente em relação ao ator principal, veio a surpresa. Thór Junior cresce muito em cena. Aos poucos realmente encarna Tim Maia. Houve momentos em que pensei: “Nossa, está muito igual”. Ao mesmo tempo, ele não fica preso apenas à imitação. Existe ali uma interpretação própria, uma energia particular. Ele emula Tim Maia com respeito e intensidade.
E o espetáculo Tim Maia – Vale Tudo, o Musical cresce junto com Thór Junior.
A montagem vai ganhando força, emoção, corpo. Para quem é fã, há momentos realmente tocantes. A narrativa passa por várias fases da vida do cantor e traz participações de personagens importantes de sua trajetória, como Roberto Carlos, Jorge Ben, Gal Costa, Sandra de Sá e Marisa Monte.
Tenho assistido a muitos musicais nos últimos anos, estamos vivendo um momento forte desse gênero no Brasil. Já vi produções sobre Elvis Presley, Djavan, Paralamas do Sucesso, entre outros. E posso dizer com tranquilidade que o musical sobre Tim Maia foi um dos mais animados.
A banda ao vivo merece um elogio especial. O som é redondo, potente, vibrante. Faz uma diferença enorme na experiência. A música pulsa no palco, e isso eleva muito a qualidade do espetáculo.

O elenco, no geral, está muito bem. Há algo de muito bonito em ver tantas pessoas cantando a história de um artista que é tão parte da memória afetiva do Brasil.
O musical passa rapidamente por algumas polêmicas da vida de Tim, mas prefere focar nas canções, e faz sentido, claro, afinal, é nelas que ele continua vivo.
A cenografia também impressiona. É versátil, criativa e cheia de personalidade. Em poucos movimentos o palco se transforma: vira o programa do Chacrinha, depois o Circo Voador, depois a igreja do universo racional. Funciona muito bem.
Mesmo assim, senti falta de um aprofundamento maior em alguns aspectos da vida dele. Seus amores, por exemplo, aparecem pouco. Cristina, eternizada na música, no verso “Vou ver Cristina”, merecia mais espaço.
A peça não é curta — tem cerca de duas horas — e ainda assim fica a sensação de que muita coisa ficou de fora. Mas talvez isso seja inevitável quando se fala de alguém com uma vida tão intensa quanto Tim Maia.
O espetáculo é inspirado no livro de Nelson Motta, aliás um dos melhores livros que já li na vida. Recomendo fortemente. Ali é possível mergulhar com muito mais profundidade na história desse artista tão singular.
No palco, porém, a proposta é outra. O musical funciona como uma grande festa. Uma boa homenagem. Um desfile de sucessos que celebra a força, a irreverência e a genialidade de Tim Maia.
E, no centro de tudo, está Thór Junior.
Sua potência vocal impressiona. E o esforço visível para capturar o espírito, quase indomável, de Tim Maia torna a experiência ainda mais especial.
Porque interpretar Tim Maia não é fácil.
Mas, Thór Junior consegue. A interpretação de “Me Dê Motivos” fez meus olhos marejarem. Descobri os sete mares escorrendo pelas maçãs do meu rosto.
Por fim, aplausos de pé de um público que não queria dinheiro, só queria amar. Um espetáculo.
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SERVIÇO – Tim Maia – Vale Tudo, o Musical
Local: Teatro Casa Grande – Rio de Janeiro
Endereço: Av. Afrânio de Melo Franco, 290 A, Leblon, Rio de Janeiro RJ, Shopping Leblon
Temporada: 6 de março a 12 de abril de 2026
Dias e horários: Sexta a domingo. Sexta às 20h; sábado às 16h e 20h e domingo às 19h.
Ingresso: Disponível no site da Eventim e na bilheteria física do teatro. [https://www.eventim.com.br/artist/teatro-casa-grande/tim-maia-vale-tudo-o-musical-4071980/]
Bilheteria Teatro Casa Grande (sem taxa de serviço): Avenida Afrânio de Melo Franco, 290 – Loja A – Leblon – Rio de Janeiro/RJ. Funcionamento: Quarta das 12h às 18h. Quinta a domingo a partir das 15h até 30 minutos após o início do espetáculo.



