Dirigido por Pete Ohs, Erupcja se apresenta como uma reflexão íntima, e por vezes desconcertante, sobre o desgaste dos relacionamentos contemporâneos.
A primeira associação que surge ao término da sessão de Erupcja remete ao livro ‘Trabalhar no Paraíso Pode Ser Um Inferno’, de Simon Rich, produção que originou a série Miracle Workers (2019, Simon Rich). Neste universo, anjos tentam manipular sinais para unir um casal humano, e acabam levantando uma questão curiosa: mesmo quando o universo parece nos enviar mensagens claras, estamos realmente atentos a elas? Ou, ao contrário, projetamos significados onde não existe nada? Essa provocação ecoa diretamente em Erupcja, que constrói sua narrativa a partir da interpretação subjetiva de sinais emocionais.
Ambientado em uma Polônia turística, que funciona mais como pano de fundo do que como elemento dramático, o filme acompanha um casal em férias. No centro da trama está Bethany, interpretada por Charli XCX, uma jovem em crise existencial que coloca em xeque seu relacionamento atual com Rob e revive memórias de um antigo caso com Neil. A ideia recorrente de que “os vulcões sempre explodem” quando ambas estão juntas, funciona como metáfora insistente, e excessiva, para a inevitabilidade de conflitos emocionais.
Para Bethany, esses “sinais” parecem inequívocos: sua insatisfação com o presente a impulsiona a abandonar o namorado em busca de uma liberdade idealizada. No entanto, o reencontro com Neil revela um contraste amargo: ela já seguiu em frente, inserido em outro relacionamento igualmente imperfeito. Essa dinâmica constrói uma protagonista difícil de abraçar. Se por um lado suas inquietações são compreensíveis, por outro sua postura pode soar fria, impulsiva e emocionalmente imatura.

Charli Xcx em cena de “Erupcja”- Divulgação Oficial
Curiosamente, Erupcja encontra mais força justamente quando Bethany se ausenta. No terceiro ato, ao deslocar o foco para Rob e Neil, o filme ganha densidade emocional. A narrativa abandona parte de seu verniz conceitual, incluindo o uso insistente de imagens de vulcões e experimentações visuais, e explora as relações humanas de forma mais concreta. Ainda assim, a atuação de Charli XCX permanece como um dos pontos mais intrigantes do filme: sua interpretação contida reforça tanto o vazio emocional da personagem quanto sua desconexão com o mundo ao redor.
Apesar de sua proposta direta, há uma sensação constante de fragmentação. As situações apresentadas carecem de coesão, como se o filme operasse mais no campo das ideias do que na construção dramática tradicional. O simbolismo sobre relações e comprometimento permanece frequentemente implícito demais, exigindo um esforço interpretativo que nem sempre é recompensado. Em alguns momentos, a obra se aproxima de um ensaio acadêmico inacabado, interessante em suas intenções, mas irregular em sua execução.
Essa irregularidade também se manifesta na estética. A fotografia oscila entre o amadorismo e momentos de beleza quase publicitária, especialmente nas paisagens urbanas e naturais. Enquanto as quentes imagens de arquivo de vulcões, trazem uma sensação de calor e potência explosiva que deveria ser melhor explorada dentro da produção, ao invés de interações tão frias.

Charli Xcx e Lena Góra em cena de “Erupcja”- Divulgação Oficial
Erupcja definitivamente não é um filme para todos. Sua abordagem naturalista e seus personagens falhos, desprovidos de grandes arcos ou qualidades redentoras, dificultam a identificação imediata do público. Trata-se, em grande medida, de um retrato de conflitos íntimos e cotidianos, frequentemente associados ao que se convencionou chamar de “white people problems”, o que pode limitar ainda mais seu alcance emocional.
Ainda assim, há algo que permanece. Não é um impacto imediato ou arrebatador, mas uma espécie de eco. O filme deixa pequenas marcas que ressurgem com o tempo, seja pela frieza calculada da atuação de Charli XCX, pela honestidade crua no retrato das relações ou por momentos isolados de inspiração estética.
Exibido como filme de abertura do Festival de Cinema Europeu Imovision, realizado entre os dias 23 e 29 de abril, Erupcja se encaixa bem na proposta de um cinema autoral que provoca mais do que satisfaz. Pode frustrar, pode afastar, mas dificilmente passa completamente despercebido, e talvez seja justamente aí que reside seu maior mérito.
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