A Canção do Samurai é uma boa série? Quando acabei de ver o primeiro episódio, já me senti bem e feliz. Parecia ter visto um filme. E é bem isso, já que cada episódio tem mais de uma hora e meia de duração. Mas não cansa, pelo contrário, deixa aquele gosto de quero mais.
A Canção do Samurai não apenas revisita a história do Shinsengumi, mas reconstrói o mito dos samurais sob uma ótica mais humana, violenta e politicamente instável. Inspirada no mangá Chiruran: Shinsengumi Requiem, sucesso no Japão, a produção da HBO aposta menos na romantização típica do gênero e mais na sensação de desgaste, medo e transformação social que marcou o fim do período Edo.
Os dois primeiros episódios, os quais mais parecem filmes, funcionam quase como uma longa introdução ao nascimento do Shinsengumi e à ascensão de Hijikata Toshizo. Interpretado com muito carisma e eficiência por Yuki Yamada, o personagem surge inicialmente mais próximo de um brigão impulsivo do que do estrategista lendário que a história japonesa consagrou. A série acerta justamente ao transformar essa evolução em parte central da narrativa. Hijikata não nasce como herói. Ele é moldado pela violência, pelas derrotas e pela necessidade de sobreviver em um Japão à beira do colapso.
O grande diferencial da série até aqui está na atmosfera. A direção evita o visual exagerado comum em adaptações de mangás live-action e constrói um retrato mais sóbrio do Bakumatsu. Ruas enlameadas, interiores escuros e figurinos gastos ajudam a vender a sensação de um país decadente, pressionado tanto pelas disputas internas quanto pela chegada da influência ocidental. Existe um cuidado evidente em tornar aquele mundo crível sem perder o apelo cinematográfico. Ou seja, uma direção de arte de respeito.
As cenas de luta também impressionam. Em vez de coreografias excessivamente estilizadas, a série aposta em confrontos rápidos, brutais e físicos. Cada duelo parece carregar consequências reais, algo reforçado pelo trabalho de câmera e pela forma como o impacto dos golpes é mostrado. A violência nunca soa gratuita. Ela funciona como extensão das ideologias e conflitos internos dos personagens. Palmas para a direção de Kazutaka Watanabe.
Outro ponto forte é o elenco secundário. Kondo Isami surge como uma figura quase paternal dentro do grupo, enquanto Okita Soji equilibra beleza e ameaça silenciosa. Já Hajime Saito é imediatamente marcante, uma presença potente e decisiva em meio ao caos.
Mesmo ainda em fase de construção, A Canção do Samurai demonstra ambição ao tratar o Shinsengumi não apenas como guerreiros lendários, mas como homens tentando encontrar propósito em um período de ruptura histórica. Os episódios iniciais tem tempo de filme, e talvez até avancem lentamente para quem espera ação constante e ininterrupta, mas essa é exatamente a graça, pois o roteiro exalta a tensão política crescente, personagens fortes e uma identidade visual extremamente sólida e pulsante.

Com essa mescla entre drama histórico, potência e desenvolvimento de personagens, a série é uma das adaptações mais interessantes já feitas sobre o Shinsengumi e uma das melhores sobre samurais. Achei até agora melhor que Até o Último Samurai, da Netflix, a qual até funciona como entretenimento e tem mais ação, mas cuja história não conquista e cativa tanto como A Canção do Samurai.
A Canção do Samurai X: quem é Hajime Saito, a lenda do Shinsengumi
A princípio, fiquei interessado em A Canção do Samurai por que ouvi falar do Shinsengumi a primeira vez vendo o anime Samurai X (Rurouni Kenshin) no ano de 2000. Adorava o desenho, sempre tive um certo fascínio pelos samurais. A questão da honra, do bushido, o caminho do guerreiro, um código de conduta reto. Além disso, acho espada uma arma elegante, bela.
Em Samurai X, por volta do episódio 28, aparece um personagem que é um dos meus preferidos de todos os animes até hoje: Hajime Saito. Era um remanescente do Shinsengumi, uma tropa de elite composta por samurais e também por homens de origem camponesa fiéis ao xogunato Tokugawa. O grupo atuava em Quioto durante o turbulento período Bakumatsu, na década de 1860, com a missão de proteger representantes do governo e conter movimentos rebeldes de caráter imperialista.
Saito foi capitão da 3ª unidade do Shinsengumi. Na vida real, participou de diversas missões do Shinsengumi, ajudando a combater opositores do xogunato e manter a ordem na cidade. Seu estilo de luta era marcado por golpes rápidos e precisos, especialmente a técnica conhecida como “Hiratsuki”.

No divertido Samurai X, o personagem é retratado como um guerreiro extremamente habilidoso, de personalidade fria e comportamento implacável. Guiado pelo lema “Aku Soku Zan”, que defende a eliminação imediata do mal, Saito se torna uma figura temida. Na trama, também é um dos raros personagens capazes de enfrentar o protagonista Kenshin Himura em igualdade, utilizando a técnica “Gatotsu”, um golpe rápido e devastador inspirado no estilo atribuído ao verdadeiro Hajime Saito.
Kenshin Himura x Hajime Saito: o primeiro encontro deles é uma das lutas mais legais do anime
Com o fim do xogunato e a ascensão do governo imperial após a Guerra Boshin, Hajime Saito sobreviveu ao conflito e passou a usar o nome Fujita Goro. Posteriormente, trabalhou como policial no Japão da era Meiji, tornando-se um dos poucos ex-integrantes do Shinsengumi a se integrar ao novo regime.
Ele também aparece na boa trilogia live-action de Samurai X, disponível na Netflix.
Agora Saito está de volta, em outra versão.
A Canção do Samurai é focada principalmente em Hijikata Toshizo, mas também dedica espaço importante a outros membros históricos do grupo. Diferente de versões mais idealizadas, a série apresenta os guerreiros do Shinsengumi como homens endurecidos pela guerra, pela lealdade ao xogunato e pela letalidade daquele momento histórico.
Entre eles, Hajime Saito surge como uma das figuras mais fortes. O personagem é retratado de maneira instigante e emocionante, rouba a cena quando aparece.
No mangá, Saito raramente demonstra emoções e costuma agir de maneira direta e implacável, reforçando a fama histórica de espadachim letal associada ao verdadeiro integrante do Shinsengumi. A arte ainda destaca esse perfil com expressões fechadas e uma presença intimidadora em cena. Na série, Hajime mostra mais emoções e é até divertido no começo.
O Shinsengumi aparece em diversos outros animes, indo de retratos históricos até versões cheias de ação e fantasia. Entre os principais títulos estão:
- Hakuouki — Drama histórico com elementos sobrenaturais, focado em Hijikata Toshiz? e nos conflitos do período Bakumatsu.
- Peacemaker Kurogane — Abordagem mais realista e violenta, acompanhando um jovem que entra para o Shinsengumi.
- Gintama — Releitura cômica e anacrônica do Shinsengumi, misturando humor, ação e paródia.
- Bakumatsu Rock — Versão alternativa e extravagante em que figuras históricas viram estrelas do rock.
- Hakuoki: Demon of the Fleeting Blossom — Vertente mais sombria e sobrenatural do universo Hakuouki.
Por fim, A Canção do Samurai é uma delícia de série, com uma certa estética de anime, mas sem exagerar demais. Os personagens são carismáticos e as lutas bem feitas. O elenco trabalha com eficiência, há química entre eles e equilíbrio entre brutalidade e elegância.
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