A força das narrativas indígenas chega aos palcos cariocas em formato musical e infantojuvenil com a estreia de A Cura da Terra – Pequenas Revoluções, novo espetáculo do CIA – Coletivo Indígena Autônomo. A montagem ocupa o Teatro Municipal Ziembinski, na Tijuca, a partir de 7 de março, propondo um encontro entre ancestralidade, emergência climática e revoluções indígenas da América Latina sob a perspectiva da infância.
Inspirado no livro homônimo de Eliane Potiguara, considerada a primeira escritora indígena do Brasil, o espetáculo amplia o universo literário da autora para o teatro musical contemporâneo, dialogando com crianças, jovens e adultos. A proposta reafirma o compromisso do coletivo com debates urgentes e com a valorização das culturas originárias no centro da cena teatral.
No livro que inspira o espetáculo, a personagem Moína descobre, por meio das conversas com sua avó, histórias de resistência, saberes ancestrais e a memória de seu povo. A narrativa apresenta como as crianças conseguem a cura da Terra quando um grande mal atinge a todos, transformando o sonho e a escuta dos mais velhos em instrumentos de transformação coletiva.
A montagem teatral A Cura da Terra – Pequenas Revoluções parte dessa problemática para criar uma encenação musical marcada por uma banda de rock em cena, que canta e encena revoluções indígenas da América Latina. Ao trazer a linguagem do rock e performances corporais intensas, o espetáculo busca aproximar as novas gerações de temas complexos como crise ambiental, resistência política e identidade cultural.
Segundo o diretor Rafael Bacelar, o encontro com a obra de Eliane Potiguara surge de uma conexão anterior do grupo com seus textos. “Eliane é uma das personalidades mais importantes da literatura, pensamento e existência indígena. Quase todos nós já havíamos nos conectado com seus textos, e a partir do diálogo com o livro ‘A Cura da Terra’, montamos nossas Pequenas Revoluções. Essas obras têm a força que elas têm como literatura e, acredito, ganhamos mais força quando nos abrimos para relacioná-las com outras tantas questões poéticas, textos, desejos, ampliando assim a própria obra e como ela reverbera no mundo do teatro”, afirma o diretor.
A Cura da Terra – Pequenas Revoluções e a continuidade da pesquisa do CIA
O novo trabalho marca o segundo encontro de Rafael Bacelar com o elenco e dá continuidade à pesquisa iniciada em Karaiba: um musical originário, espetáculo que recebeu indicações, prêmios e participou de festivais pelo país.

Bacelar destaca que há uma investigação contínua sobre presença cênica, musicalidade e o diálogo entre teatro e política. “Quem assistiu ao último trabalho que fizemos, perceberá a continuidade de uma investigação profunda sobre a ideia de presença, a criação cênica, a musicalidade e, sobretudo, o modo singular como construímos a relação entre teatro e pautas políticas. Nossa abordagem desse diálogo – teatro e política – se ergue de um gesto específico: o teor político (seja na palavra, no corpo ou na imagem) emerge principalmente da celebração dos corpos, da presentificação da vida em cena. Acredito que o impacto inicial será justamente esse: a presença massiva e total de corpos indígenas em cena, existências indígenas em diálogo direto com uma plateia diversa. Espero que o público possa caminhar conosco ao longo do espetáculo a partir dessas pequenas – e necessárias – revoluções”, pontua.
A montagem foi concebida com ficha técnica majoritariamente indígena, reafirmando o protagonismo originário em todas as etapas do processo criativo.
Embora classificado como espetáculo infantojuvenil, o musical A Cura da Terra – Pequenas Revoluções se define como uma obra “para todas as idades”. A proposta do CIA evita a segmentação rígida entre teatro infantil e adulto, entendendo que a experiência teatral é compartilhada e mediada entre gerações.
“Neste processo, temos o desejo de criar um espetáculo que reflita as questões indígenas por um viés do teatro contemporâneo voltado a um público ‘para todas as idades’. Há que se ater nesse termo, uma vez que faz parte do entendimento de pesquisa do grupo se voltar ao ‘processo de pensamento sobre a cena’ em que o espetáculo seja passível e possível de usufruir. Não é raro que se veja espetáculos voltados ao ‘público infantil’ se esquecendo do fato de que o adulto também faz parte daquela celebração teatral. E que será ele o sujeito capaz de mediar questões ‘pós-peça’ junto da criança. Então, se ele não é levado em consideração, qual seria a sua função naquele momento?”, provoca Bacelar.
O espetáculo, assim, aposta em uma dramaturgia que articula linguagem acessível às crianças com camadas simbólicas e políticas que dialogam diretamente com o público adulto.
A Cura da Terra – Pequenas Revoluções e a presença da língua Apurinã
Outro elemento central da montagem é a inserção da língua Apurinã, do tronco Aruak, por meio da atuação de Yumo Apurinã. A presença do idioma funciona como dispositivo socioeducacional, promovendo visibilidade linguística e valorização cultural.
A escolha reforça a dimensão pedagógica do espetáculo, que busca educar ao mesmo tempo em que entretém. Ao abordar emergência climática, preservação ambiental, valorização da mulher indígena e resistência histórica, a obra fomenta consciência crítica nas novas gerações.
Além disso, o espetáculo destaca o protagonismo feminino e a importância da literatura indígena em um cenário ainda marcado pela sub-representação de vozes originárias.
Ao narrar como as crianças encontram caminhos para curar a Terra diante de uma crise ambiental, a montagem conecta ficção e realidade. A temática dialoga diretamente com debates contemporâneos sobre mudanças climáticas, preservação de biomas e responsabilidade coletiva.
A Cura da Terra – Pequenas Revoluções utiliza música, movimento e imagens simbólicas para tratar de temas complexos sem didatismo excessivo. O sonho surge como espaço de imaginação política e construção de futuros possíveis.
Ao relacionar revoluções indígenas latino-americanas com o presente, o espetáculo amplia o entendimento de luta para além do passado histórico, conectando ancestralidade e contemporaneidade.
A temporada de A Cura da Terra – Pequenas Revoluções acontece de 7 a 29 de março, sempre aos sábados e domingos, às 16h, no Teatro Municipal Ziembinski, na Tijuca. Com duração de 60 minutos e classificação livre, o espetáculo busca alcançar famílias, escolas e público diverso interessado em teatro contemporâneo e culturas originárias.
Os ingressos têm valores populares, ampliando o acesso ao público. O projeto foi contemplado pelo edital Fluxos Fluminenses, da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro.
Serviço – A Cura da Terra – Pequenas Revoluções
Temporada: 7 a 29 de março
Dias e horários: sábados e domingos, às 16h
Local: Teatro Municipal Ziembinski
Endereço: Av. Heitor Beltrão, s/nº – Tijuca – Rio de Janeiro
Ingressos: R$ 15 (meia-entrada) e R$ 30 (inteira)
Classificação: Livre
Duração: 60 minutos
Instagram: @coletivoindigenaautonomo
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