Dirigido por Phil Lord e Chris Miller, Devoradores de Estrelas é filme otimista que adapta o livro com um direcionamento claro, alma e, acima de tudo, coração.
Não existe experiência melhor para uma audiência do que ser surpreendida por uma produção cinematográfica. Afinal, quando o público é pego desprevenido, a emoção vem naturalmente, levando a caminhos que construíram algumas das cenas mais marcantes da história do cinema. Quem esperava que uma dança de tango em Perfume de Mulher (1992, Martin Brest) conseguiria marcar tanto? Que uma simples conversa entre um babuíno e um leão sobre aceitar o passado seria levada para sessões de terapia como forma de consolo para pacientes? Ou que uma produção sobre o fim iminente da Terra poderia se tornar um dos filmes mais otimistas lançados nos últimos anos? Este é o caso de Devoradores de Estrelas.
Adaptando o livro de Andy Weir, a produção de Phil Lord e Chris Miller reforça a capacidade da dupla de encontrar emoção e humanidade nos terrenos mais improváveis, seja em uma aventura com dezenas de variações de Homens-Aranha, em um universo de Lego ou na amizade entre um solitário professor e uma rocha alienígena. A premissa de amizade entre um humano e um ser fantástico não é original, a própria produção apresenta referências diretas a E.T.: O Extraterrestre (1982, Steven Spielberg). Ainda assim, a dupla estrutura uma space opera digna da maior tela de cinema possível, tanto em escala visual quanto emocional.
Com duas horas e 36 minutos de duração, Devoradores de Estrelas poderia facilmente correr o risco de cair no marasmo. Porém, com uma edição ágil e uma boa divisão entre espetáculo visual, humor e momentos dramáticos, não sentimos o tempo passar. Conduzidos por um carismático Ryan Gosling, atravessamos dois processos distintos: primeiro o peso da iminência do fim e, em seguida, a redescoberta de uma humanidade que não estava perdida apenas na Terra, mas também em cada um que se senta no escuro para assistir ao filme.

Ryan Gosling em cena de “Devoradores de Estrelas”- Divulgação Sony Pictures
Logo no início da história, sabemos que o Sol está morrendo, e o professor Ryland Grace, Gosling, se encontra sozinho em uma espaçonave para descobrir o motivo e, assim, salvar o planeta inteiro. Inicialmente solitário e ciente de que talvez jamais retorne à Terra, acaba caindo em desânimo, até conhecer um alienígena rochoso carinhosamente apelidado de Rocky. Em muitos momentos, acreditamos que algo ruim irá acontecer, que um dos dois morrerá ou que alguém precisará trair o outro para sobreviver. Para nossa surpresa, nada disso ocorre, e Devoradores de Estrelas entrega uma das amizades mais fortes e inesperadamente marcantes do cinema recente.
Quando tudo parece prestes a ruir, e percebemos por meio de flashbacks na Terra que a esperança diminui cada vez mais, pequenos momentos como um karaokê ou interações leves entre Grace e o segurança Carl, elevam o filme a outro patamar. Em um período em que a iminência de crises globais e notícias alarmantes parece constante, produções como Devoradores de Estrelas surgem como lembretes de que ainda vale a pena manter a esperança.
A amizade entre Grace e Rocky é simples, quase paternal em alguns momentos, especialmente quando Rocky reflete a relação que Grace tinha com seus próprios alunos na Terra. Ainda assim, o vínculo entre os dois vai além disso. Eles constroem um laço fraternal que passa por desafios e dificuldades, mas nunca por conflitos artificiais. O filme entende que o coração da história não está em desentendimentos entre os personagens, e essa escolha torna suas interações ainda mais puras e emocionalmente marcantes.

Ryan Gosling em cena de “Devoradores de Estrelas”- Divulgação Sony Pictures
Visualmente, a produção utiliza toda a força da tela IMAX, preenchendo o quadro com vastidão espacial e imagens capazes de brilhar os olhos. Há ecos claros de produções como 2001: Uma Odisseia no Espaço (1968, Stanley Kubrick) e outros grandes épicos estelares. Mas, muito além da rica composição cinematográfica, que une fotografia, direção de arte simples, porém eficaz, e efeitos visuais convincentes, a verdadeira força do filme está em seu retrato de humanidade.
Humanidade, aqui, não aparece apenas como conceito, mas como prática. Em meio a produções cada vez mais sombrias, repletas de reviravoltas, traições e heróis que se tornam vilões, assistir a um filme em que os personagens demonstram empatia, leveza e companheirismo de forma sincera, e nunca forçada, faz com que nós, como audiência, repensemos nossa própria percepção sobre o que significa ser humano.
Parafraseando Nicolas Cage em O Peso do Talento (2022, Tom Gormican), se As Aventuras de Paddington 2 (2017, Paul King) nos faz ter vontade de ser pessoas melhores, Devoradores de Estrelas levanta a nossa cabeça e nos faz acreditar que, apesar de tudo o que enfrentamos diariamente, a vida ainda vale muito a pena.
Distribuído pela Sony Pictures, Devoradores de Estrelas estreia nos cinemas no dia 19 de março, com sessões especiais sendo realizadas neste sábado, dia 14.
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