Criada por Danielle Ward, Eu, Meu Pai e um Bebê utiliza o humor britânico para discutir uniões, reencontros e segundas chances.
Logo no começo dos primeiros episódios de Eu, Meu Pai e um Bebê, mandei mensagem para uma amiga por conta de dois assuntos presentes na série que haviam sido discutidos na noite anterior, durante uma reunião com colegas. Esta qualidade da produção ficou na minha cabeça: o modo como abraça temas da contemporaneidade de forma natural, transformando-os em conversas comuns e, justamente por isso, universais — capazes de cativar qualquer audiência. Sem esquecer, claro, a questão familiar, os arrependimentos e a união, que permanecem constantes ao longo da temporada.
Com Aimee Lou Wood extremamente confortável no papel de uma mulher que se reconecta com o pai distante e atrapalhado após uma gravidez indesejada, a criação de Danielle Ward aposta em um humor seco e irônico, tradicional da comédia britânica. A série transita entre autodepreciação, ironia e absurdos, sem esconder a realidade, apenas a ampliando como forma de cativar o público. E, mesmo quando o drama se impõe, ele surge na medida certa, principalmente na relação entre Gemma, Lou Wood, e Malcom, David Morrissey.

Aimee Lou Wood em cena de “Eu, meu pai e um bebê”- Divulgação
Alternando entre o real e absurdos recorrentes, como o arco da irmã de Gemma, que se encontra presa, há momentos em que a série ganharia mais sendo um pouco mais contida e humana. Ainda assim, Eu, Meu Pai e um Bebê é rápida e gostosa de assistir, fazendo a gente refletir sobre as próprias mudanças de vida ao mesmo tempo em que entrega conforto, especialmente nas interações entre Lou Wood e Morrissey.
Quando o foco está neles, funciona. Já os personagens secundários até tentam, mas não apresentam profundidade suficiente para cativar de verdade. Derek é o exemplo mais claro: cai no arquétipo do personagem insuportável, ainda que bem-intencionado. Cherry e Xander servem como pontos de apoio para Gemma e ampliam o universo fora do núcleo familiar, com tiradas inteligentes, mas sem força para se sustentar sozinhos, dependendo de Lou Wood para “se moverem no tabuleiro”, algo que talvez mude na nova temporada.
A escolha criativa de uma estética mais dramática faz com que a série remeta a produções como Fleabag (2016, Phoebe Waller-Bridge). Porém, enquanto Fleabag abraça os absurdos e uma teatralidade assumida por meio da quebra da quarta parede, Eu, Meu Pai e um Bebê recorre a uma estética bem mais clean. Isso afeta a comédia em si, já que os diálogos viram o grande motor narrativo e, em alguns trechos, essa dependência leva a repetições cansativas das mesmas dinâmicas.

Aimee Lou Wood em cena de “Eu, meu pai e um bebê”- Divulgação
A maior força de Eu, Meu Pai e um Bebê é o carisma de Lou Wood: um ponto firme que impede Gemma de cair no estereótipo. Ela intercala bem os momentos mais profundos com aqueles de pura diversão e imprime uma honestidade que atravessa toda a produção. É uma sensibilidade comum em comédias britânicas, que parecem ter mais consciência de que tudo é processo, e as coisas não se resolvem magicamente. Mesmo com a reaproximação de Gemma e Malcom, o trauma ainda existe; as dúvidas e os receios permanecem. Mas, naquele momento, eles são uma família, e o resto se resolve quando for a hora, unidos e sem esquecer de rir de si mesmo.
A primeira temporada de Eu, Meu Pai e um Bebê está disponível no streaming do Fimmelier+.
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