Dirigido por Michael e Danny Philippou, Faça Ela Voltar é um estudo sobre luto, aceitação e dor, que se expressa por meio de imagens perturbadoras
A relação entre o humano e o monstro acompanha a humanidade desde suas origens, quando o primeiro homem das cavernas pintou a imagem de um mamute assustador na caverna, foi delimitado que aquele ser gigante era algo a se temer, uma ameaça, enquanto o homem é corajoso, apto, e bom. Esta dicotomia continuou presente por toda a evolução humana, sendo fortemente usada pela igreja na Idade Média, e amplamente discutida no começo do século XIX.
Neste período, a literatura, e futuramente o cinema, iniciaram um processo de subversão desta dicotomia de bem e mal, bonito e feio, como em Frankenstein (1818, Mary Shelley), que revela o verdadeiro monstro mais próximo de nós do que gostaríamos de admitir, ou O Corcunda de Notre Dame (1831, Victor Hugo) que discute sobre o que realmente constrói um monstro. O terror se alimenta justamente desse desconhecido: o que acontece quando o perigo está ao nosso lado, invisível, sofrendo tanto quanto nós, e apto a fazer de tudo para finalmente encontrar paz, e a felicidade que acha merecida? É esse dilema que envolve a personagem de Sally Hawkins em Faça Ela Voltar.

Billy Barratt e Sora Wong em cena de Faça Ela Voltar- Divulgação www.ingvarkenne.com
Faça Ela Voltar conta a história dos meio-irmãos Piper e Andy. Após a morte do pai, eles vão viver com a enigmática Alice ,interpretada por Sally Hawkins, e seu filho Oliver, um garoto mudo e inquietante. Logo, descobrem estar presos a um ritual sombrio capaz de separá-los para sempre. O luto é o motor narrativo, explorado em camadas de mistério, tensão psicológica e body horror, com cenas de mutilação que impressionam e perturbam o espectador, sem nunca perder a força emocional que permeia o filme todo por conta de seus temas universais e que todos da audiência temem em certo grau ou não.
O coração do filme é o vínculo entre Piper, deficiente visual, e Andy, que assume para si a missão de protegê-la. Essa relação fraterna, tão humana, é gradualmente corroída pelos planos de Alice, que necessita apenas de Piper para fazer um ritual que poderá trazer de volta à vida sua falecida filha, e os horrores deste ritual, que envolve um jovem Oliver que perde sua humanidade cada vez mais na medida que a produção avança, é o que mais marca e perturba o público.
A ambientação reforça o desconforto cada vez mais: tons apagados e pastéis, com um vermelho berrante em diversos momentos, flores mortas, uma natureza sem vida, um clima nublado e uma chuva constante que intensifica a tensão, é auxiliado por uma fotografia alterna foco e desfoco, refletindo a percepção de Piper e escondendo horrores até o instante certo, garantindo sustos eficazes.

Sally Hawkins em cena de Faça Ela Voltar- Divulgação Copyright www.ingvarkenne.com
Como em O Bebê de Rosemary (1968, Roman Polanski), os irmãos Philippou constroem um terror que nasce do cotidiano, do subúrbio da cidade grande, de culpas e arrependimentos ocultos que crescem até se tornarem insuportáveis. Mais que monstros, o que aterroriza é a dor mal resolvida, algo também discutido em O Babadook (2014, Jennifer Kent), porém, Faça Ela Voltar apresenta um final bem mais aterrorizador e agridoce, afinal, em nenhum momento da produção o público foi poupado da tensão e de cenas marcantes, por consequência, o final não fugiria muito disso.
Com estreia marcada no Brasil para 21 de agosto, distribuído pela Sony Pictures, Faça Ela Voltar é uma experiência sufocante: um terror visceral sobre família, morte e memória, que não assusta tanto quanto deveria, mas permanece inesquecível por conta de sua tensão e cenas gráficas marcantes, se tornando marcante dentro do gênero.
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