Dirigido por Chloé Zhao, Hamnet explora um lado mais íntimo e humano de Shakespeare, conduzindo-nos por uma jornada que emociona em nível catártico
Não me recordo quem fez o seguinte comentário, caso esta pessoa esteja lendo, por favor, se manifeste: “Todas as histórias do presente encontram seu primeiro espelho no Teatro Grego, depois na Bíblia e, por fim, nas peças de William Shakespeare, de resto, tudo é cópia”. Posso ter esquecido quem me disse isso, mas jamais esquecerei a frase, principalmente quando vejo uma produção tão potente quanto Hamnet. Mesmo não sendo uma obra “original”, o filme é construído de forma tão simples, mágica e transcendental, que se torna arte em seu estado mais puro.
A discussão sobre o luto e o modo como ele afeta famílias já foi trabalhado de diferentes forma, ainda assim, permanece impactante porque o luto é um processo natural pelo qual todos passamos, mas que poucos compreendem, e menos ainda sabem lidar, justamente por isso que ele continua a nos atingir de forma tão profunda.

Jacobi Jupe como Hamnet, Bodhi Rae Breathnach como Susanna e Olivia Lynes como Judith em HAMNET.
Credit: Agata Grzybowska / © 2025 FOCUS FEATURES LLC
Adaptando o livro homônimo de Maggie O’Farrell, Chloé Zhao transmite essa complexidade com maestria, nos guiando por cada plano por meio de uma sensibilidade única, unindo todas as qualidades para uma grande obra: o roteiro potente, a mise-en-scène impecável, a cinematografia mágica e a direção de arte que humaniza um cenário épico, conduzido por duas atuações simplesmente magistrais.
Paul Mescal entrega um Shakespeare mais quebrado e humano do que o confiante poeta vivido por Joseph Fiennes em Shakespeare Apaixonado (1999, John Madden), porém, mesmo com uma presença marcante, o holofote recai, com justiça, sobre Jessie Buckley. Ainda pouco reconhecida pelo grande público, Buckley vem provando, filme após filme, o seu verdadeiro potencial, entregando em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet o seu coup de grâce: uma atuação visceral, repleta de verdade e contenção.
A narrativa acompanha Shakespeare, Mescal, e Agnes, Buckley, desde o primeiro encontro, passando pelo casamento e pela criação dos filhos. O ritmo lento permite ao espectador absorver cada nuance desse amor que floresce com calma, como um lento passeio pela floresta, no qual paramos a cada instante para respirar o ar ou ouvir o canto de um pássaro.
Ao final, a trilha sonora de Max Richter desempenha papel fundamental, nos conduzindo ao riso, ao choro e à reflexão, forçando um pouco demais as emoções que devemos sentir a todo momento, quase de forma exagerada.
Acompanhamos o casal vivendo um paraíso doméstico com o nascimento da primeira filha, Susanna. No entanto, o parto dos gêmeos Hamnet e Judith traz as primeiras sombras: Judith nasce natimorta. A trilha intensa de Richter aumenta a tensão, e é impossível não sofrer junto com Agnes, torcendo para que o bebê sobreviva, algo que acontece com grande alivio.

Jessie Buckley como Agnes e Joe Alwyn como Bartholomew em cena de HAMNET.
Credit: Agata Grzybowska / © 2025 FOCUS FEATURES LLC
Vemos as crianças crescerem, brincando como Bruxas de Macbeth (1623) e tecendo inúmeras referências às futuras obras do dramaturgo, indicando que a obra não se trata de uma biografia de Shakespeare, mas de uma recriação ficcional, quase uma inspiração para o homem que viria a escrever aquelas peças tão marcantes, sendo a sua maior tragédia, um modo de lidar com o luto.
A sequência da morte de Hamnet é longa e devastadora. Chloé Zhao não poupa o espectador, conduzindo o luto com intensidade quase cruel, forçando-nos à catarse de uma forma ou de outra, nos impedindo de tirar o olhar, quando talvez um tratamento mais contido e naturalista, teria surtido um efeito mais profundo; ainda assim, o impacto é inegável.
Após a morte de Hamnet, a paleta de cores escurece, e a mise-en-scène se retrai. O silêncio e o vazio dominam a tela, refletindo o distanciamento entre Shakespeare e Agnes, e neste momento que Buckley brilha plenamente por meio de sua dor contida que explode com vigor no clímax, quando assiste à Hamlet (1623) pela primeira vez.

Paul Mescal como William Shakespeare, e Jessie Buckley como Agnes em cena de Hamnet. Divulgação: Courtesy of Focus Features / © 2025 FOCUS FEATURES LLC
A grande mensagem de Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é a forma como a arte pode curar cicatrizes. Shakespeare transforma sua dor em criação, usando a tragédia do Príncipe da Dinamarca como um ato de terapia, inclusive interpretando o Rei Hamlet, que simbolicamente se despede do próprio filme.
Ao final, mesmo que a produção tome liberdades ficcionais, a mensagem atravessa com força: o que importa não é a precisão histórica, mas a potência emocional da arte, e a forma como ela nos permite sobreviver à dor, algo que Zhao talvez fortaleça um pouco demais, porém, é inegável a potência que Hamnet: A Vida Antes de Hamlet apresenta, em todos os seus sentidos.
Filme de encerramento do 27º Festival do Rio, e distribuído pela Universal Pictures, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet tem previsão de estreia para 29 de janeiro de 2026.
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