Dirigido por Nikolay Lebedev, Kraken: Terror no Mar promete ação, monstros e Guerra Fria, mas…
Quando um dos maiores monstros da história marítima é colocado no título de um filme, algumas promessas são inevitavelmente estabelecidas. No caso de Kraken: Terror no Mar, infelizmente, quase nenhuma delas é cumprida. O que inicialmente parece ser um épico de ação ambientado em plena Guerra Fria logo se transforma em um drama familiar pouco inspirado, no qual a verossimilhança é constantemente colocada de lado. E o pior: o próprio Kraken aparece praticamente o mesmo tempo que o tubarão de Spielberg em Tubarão, só que sem construir uma presença capaz de justificar tamanha expectativa.
O contexto da Guerra Fria, que poderia servir como combustível para o thriller militar, nunca é explorado em sua potência. A disputa política e militar permanece apenas como pano de fundo, enquanto a narrativa concentra seus esforços em relações que não conseguem sustentar o peso dramático da produção. É o caso da tentativa de romance entre a cientista e o capitão do submarino, construída de maneira pouco natural e sem força suficiente para estabelecer uma conexão convincente entre os personagens.
O próprio submarino encalhado no fundo do gelo deveria funcionar como um dos principais elementos de tensão. Afinal, estar preso nas profundezas do oceano, cercado por gelo e com recursos limitados, deveria transformar a falta de oxigênio em uma ameaça constante. Porém, o filme praticamente ignora essa questão. Ao não estabelecer regras claras para a situação, a narrativa quebra sua própria lógica e, consequentemente, enfraquece o sentimento de perigo que poderia sustentar boa parte da aventura.

Cena de “Kraken: Terror No Mar”- Divulgação Adrenalina Pura+
Essa fragilidade também aparece na relação entre Viktor e Alexandre. A fraternidade entre os dois nunca é verdadeiramente desenvolvida, e um simples relógio é utilizado como símbolo de uma relação que o roteiro não consegue tornar suficientemente complexa ou emocionalmente convincente. A busca pelo submarino afundado, enquanto uma criatura gigantesca circula pelas profundezas, tinha potencial para construir um arco de terror claustrofóbico e crescente. Em vez disso, a narrativa se perde em sua própria redundância, dando a sensação de que o drama familiar não chega efetivamente a lugar algum.
E é justamente aí que surge o maior desperdício de Kraken: Terror no Mar: o próprio monstro.
O Kraken aparece majoritariamente à distância, através de seus enormes tentáculos que ameaçam e destroem submarinos. Existe uma intenção interessante em preservar parte de seu mistério, mas a estratégia não funciona porque o filme não consegue transformar sua ausência em expectativa. Quando finalmente há um momento em que a criatura é mostrada de maneira mais ampla, percebe-se sua verdadeira potência visual, mas o impacto chega tarde demais. E, quando chega o confronto definitivo, o Kraken é destruído sem a dificuldade ou grandiosidade que uma criatura dessa escala deveria exigir.
Tecnicamente, a produção também não consegue compensar as fragilidades do roteiro. Os efeitos especiais não impressionam, a direção de arte não constrói uma dimensão verdadeiramente grandiosa e a fotografia pouco contribui para criar atmosfera. Mesmo o espaço apertado do submarino, que poderia ser utilizado para provocar uma forte sensação de claustrofobia, raramente transmite o desconforto esperado. Falta ao filme uma identidade visual capaz de transformar suas limitações físicas em elementos narrativos.

Cena de “Kraken: Terror No Mar”- Divulgação Adrenalina Pura+
Com 127 minutos de duração, Kraken: Terror no Mar ainda sofre de um problema estrutural evidente: a história demora demais para chegar a algum lugar. Há material suficiente para cortar facilmente meia hora sem prejudicar a narrativa, talvez até melhorá-la. A ironia é que o elemento que poderia justificar toda essa duração é justamente aquele que recebe menos espaço: o Kraken.
Ao final, Kraken: Terror no Mar decepciona não apenas por ser um filme ruim de monstros, mas por desperdiçar uma combinação que tinha potencial: Guerra Fria, submarinos, criaturas gigantes e terror nas profundezas. Quando o próprio Kraken se torna o elemento menos explorado da produção, fica difícil não sentir que o filme passou longe de entender aquilo que havia de mais interessante em sua própria premissa.
Distribuído pela Synapse Distribution, Kraken: Terror no Mar chega com exclusividade no Brasil pelo Adrenalina Pura+ a partir de 3 de setembro.
Distribuído pela Synapse Distribution, Kraken: Terror no Mar chega com exclusividade no Brasil pelo Adrenalina Pura+ a partir de 3 de setembro.
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