Dirigido por Brian Kirk, O Frio da Morte apresenta potencial, elenco de peso e uma mensagem potente, mas carece da “cola” necessária para transformar boas ideias em um conjunto coeso.
Existem duas histórias convivendo dentro de O Frio da Morte. A primeira acompanha Barb, uma viúva interpretada por Emma Thompson, que durante uma viagem de pesca a um lago remoto acaba se perdendo e se depara com o sequestro de uma jovem garota, vivida por Laurel Marsden. A menina está sob o domínio de um casal formado pelas figuras inquietantes de Judy Greer e Marc Menchaca. A segunda narrativa nos transporta anos ao passado, revelando o relacionamento de Barb com o marido e os eventos traumáticos que explicam por que ela está naquele lago, e por que salvar aquela garota se torna quase uma necessidade existencial.
A proposta de misturar thriller de sobrevivência com melodrama romântico em estrutura de flashback é interessante. O problema é que o filme parece constantemente dividido entre essas duas identidades. Há consciência temática, a ideia de seguir em frente mesmo após a dor, mas falta convicção formal para que essa mensagem emerja de maneira orgânica, e não somente verbal.

Laurel Marsden em cena de “O Frio da Morte”- Divulgação Paris Filmes
O roteiro de Nicholas Jacobson-Larson soa como algo que poderia ter saído da prateleira dos irmãos Coen, mas sem a ironia, o humor ácido ou a precisão narrativa que transformaram Fargo (1995) em referência. O cenário gelado e o crime absurdo estão ali, mas o tempero não. Em diversos momentos, O Frio da Morte subestima a inteligência do espectador, explicando demais o que poderia ser sugerido, e tornando previsível aquilo que deveria surpreender.
No arco do sequestro, a tensão funciona parcialmente, impulsionada por uma trilha que reforça o perigo constante. Ainda assim, decisões contraditórias da protagonista enfraquecem o suspense. Muitas situações só avançam porque o roteiro precisa que avancem. A personagem de Greer é um exemplo claro: estabelecida como alguém manipuladora, desesperada e habilidosa com armas, ela erra repetidamente ao atirar em Barb. A justificativa dramática é evidente, afinal a protagonista não pode morrer, mas isso expõe as engrenagens da narrativa de forma excessiva.
Em contrapartida, a linha temporal do passado apresenta maior consistência emocional. Desde o primeiro encontro do casal até o aborto espontâneo do primeiro filho, compreendemos a dor que acompanha Barb e o vazio que a move. A mudança de paleta de cores, o presente frio e sombrio contrastando com o passado quente e acolhedor, reforça visualmente essa separação. Funciona, mas de maneira um tanto didática, quase sublinhando em excesso aquilo que já está claro.

Judy Greer em cena de “O Frio da Morte”- Divulgação Paris Filmes
Com menos de 100 minutos, O Frio da Morte alterna entre essas duas tramas acumulando conveniências narrativas. Situações que poderiam gerar grande tensão são resolvidas com facilidade, e o “plot twist” envolvendo a real necessidade da garota perde impacto justamente porque o filme insiste em antecipá-lo ao longo da projeção.
A mensagem sobre luto e resiliência está presente tanto nas entrelinhas quanto nos diálogos de Barb. No entanto, permanece a sensação de que o longa reúne excelentes ideias e um elenco competente, principalmente Judy Greer, para, ao final, entregar um thriller funcional, porém genérico. Falta ousadia, maior rigor dramático e confiança na inteligência do público, deixando a impressão de que tinha todos os elementos para ser marcante, mas escolheu o caminho mais seguro.
Distribuído pela Paris Filmes, O Frio da Morte estreia em 19 de fevereiro.
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