Conheci uma pessoa que fazia críticas de teatro. Contudo, quando não gostava da peça, dizia que, ao invés de dar sua opinião, não escrevia nada. O objetivo era não ficar mal com ninguém, não ficar mal com a classe. Ou seja, demonstrava hipocrisia, falsidade e covardia.
Acredito que a crítica, ainda mais no teatro, deve ser sincera. Por exemplo, para o cinema, é difícil consertar, está totalmente pronto. Só numa próxima chance, numa outra obra. Contudo, no teatro, é possível lapidar enquanto a temporada acontece e para o futuro. Quebrando Paradigmas me fez pensar muito sobre isso. A princípio, senti muito a sensação de “mais do mesmo”. Logo lembrei de outra peça, vista inclusive no mesmo teatro, em 2023, chamada Mãe de Santo, um monólogo verdadeiramente emocionante e bem feito onde Vilma Melo contava e encenava histórias sobre racismo mostrando um pouco da realidade de ser uma mulher negra no Brasil.
Quebrando Paradigmas busca refletir sobre resistência, arte e identidade negra, abordando a trajetória histórica do povo negro no Brasil sob a perspectiva de um jovem de 23 anos, vivido por Lucas Popeta.
Focando no legado de Abdias Nascimento e do Teatro Experimental do Negro, o espetáculo destaca o protagonismo de mulheres como Maria do Nascimento, Arinda Serafim, Marina Gonçalves, e outras. Com texto e atuação de Popeta, a montagem tem direção de Gizelly de Paula, direção musical de Beà Ayòóla e movimento de Marili Stefany.
A ideia de Quebrando Paradigmas é boa e por isso chamou minha atenção a ponto de ir ao teatro na estreia, uma sexta-feira de noite, visando realizar crítica. Esperava que fosse positiva. Contudo, o espetáculo não me tocou. Apesar de ter somente 60 minutos de duração, parece mais. Percebia isso nas pessoas ao lado, algumas olhando para hora, minha namorada com sono. Primeiramente falta dinamismo, falta prender o público. O excesso de fragmentações e repetições de uma mesma situação não encaixa como fio condutor pretendido. Uma peça de uma hora não pode de forma alguma parecer mais longa (a não ser que vise isso).

Vejo muitos espetáculos de temática negra. É um dos nichos mais divulgados por mim como jornalista cultural. Tenho identificação, sendo pardo e orgulhoso companheiro de uma mulher negra. Enquanto via Quebrando Paradigmas, pensei também em uma das melhores peças que vi na vida: Furacão, da Amok Teatro. Sim, nesse caso, são formas bem distintas de abordagem. O excelente espetáculo da Amok retrata a comunidade negra de Nova Orleans durante o furacão Katrina, mas também reflete qualquer periferia. No meu caso, evocava a Madureira da minha infância. Chorei várias vezes enquanto via.
No geral, Quebrando Paradigmas não consegue gerar a emoção pretendida, apesar de um bom trabalho de iluminação de Domingos e Wladimir Alves e do esforço de Lucas. As partes com microfone, num estilo apresentação de rap, não acrescentam ou agitam como deveriam. Mas há destaques, como quando o espetáculo traz Ruth de Souza e Léa Garcia, existe graça, são bons momentos, com boas histórias, onde Lucas brilha.
Serviço – Quebrando Paradigmas
Temporada: de 31 de outubro e 09 de novembro, às sextas e sábados, às 20h, e domingos, às 19h
Local: Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa – Rua Prudente de Morais, 824 – Ipanema, Rio de Janeiro – RJ
Ingressos: R$ 40 (inteira) e R$ 20 (meia-entrada) pelo site https://ingressosriocultura.com.br/riocultura/events/48510
Classificação etária: livre / Duração: 60 minutos / Gênero: Drama contemporâneo / Lotação: 200 lugares



