Dirigido por Mary Bronstein, Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é um retrato onírico das dores, traumas e pesadelos que acompanham a maternidade.
Existem poucos filmes tão honestos, crus, agonizantes, e ao mesmo tempo divertidos, sobre o tema de maternidade, quanto Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria. Fazendo parte da lista de filmes sobre dificuldades maternais do 27º Festival do Rio, que já conta com o surrealista Morra, Amor (2025, Lynne Ramsay), a produção da A24 estrelada por Rose Byrne é corajosa por não temer levar a história à lugares sombrios e herméticos, de forma orgânica, e ao mesmo tempo agonizante, ocasionando uma produção que une a atuação primorosa de Byrne, aliada a um cuidado técnico que reforça a sensação de estranhamento, mantendo o público desconfortável desde o início até os créditos finais.
Bronstein opta por utilizar o que não é visto para aumentar o impacto do estranhamento, evitando planos inteiros dos personagens e mostrando apenas fragmentos de um quebra-cabeça que compõe o universo interno de Linda. Terapeuta, mãe de uma menina doente, Linda enfrenta uma crise atrás da outra após o teto de sua casa despencar, simbolizando o desmoronamento da vida, tanto literal quanto metaforicamente. Ao buscar ajuda, Linda é continuamente rejeitada, e sua sanidade se desgasta cada vez mais na medida que tenta se manter otimista para a filha.

Rose Byrne em “Se Eu Tivesse Pernas eu Te Chutaria”- Divulgação Synapse Distribution
Ao final da sessão, confessei a uma amiga que chamaria o filme de “Ansiedade: O Filme”, e ela concordou. Tudo, do início ao fim, reforça o caos da vida de Linda: pacientes problemáticos, um marido que não a escuta, uma filha que é somente ouvida, um terapeuta insensível, funcionários de hotel desrespeitosos, entre tantas outras dificuldades. Até mesmo situações desconfortáveis, como a história do hamster, provocam risadas por conta de estarem presentes em um universo caótico e desconfortável, nos fazendo pensar: “que ótimo, o que mais de terrível falta acontecer com esta mulher?”.
Vencedora do prêmio de melhor atriz no Festival de Berlim 2025, Rose Byrne interpreta magistralmente uma mãe com problemas bem mais marcantes que Marlo Moreau, Tully (2017, Jason Reitman), transmitindo de forma palpável sua exaustão e transformação física ao longo do filme. Em muitos momentos, desejamos entrar na tela para abraçá-la e ajudá-la, um sentimento que se torna mais doloroso ao lembrar que existem muitas Lindas em nossa realidade e pouco se faz para apoiá-las.

Rose Byrne e Conan O’Brien em cena de “Se Eu Tivesse Pernas eu Te Chutaria”- Divulgação Synapse Distribution
O filme utiliza a imaginação do espectador a favor da narrativa, não mostrando tudo e retratando a dor silenciosa de uma mulher que é um símbolo para tantas outras. Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria subverte expectativas com cenas fascinantes que emergem dos delírios de Linda, auxiliadas por uma fotografia impactante que evita por muito tempo mostrar suas pernas, uma composição sonora agonizante, marcada por bipes constantes que lembram a filha doente, a principal preocupação de Linda, os ruídos amplificados de tudo ao seu redor, e o design de arte cada vez mais caótico e claustrofóbico, reforçando a sensação de prisão que permeia o filme.
Se Eu Tivesse Pernas, Eu Te Chutaria é um estudo de personagem poderoso que intercala drama, tensão, elementos oníricos e comédia, funcionando por meio do desconforto que provoca, e apesar de todo caos e a ansiedade que transmite, o final oferece uma sensação de paz e a noção de que, embora nada esteja completamente certo, as coisas podem melhorar, sendo esta a verdadeira mensagem da obra.
Distribuido pela Synpase Distribution, Se Eu Tivesse Pernas Te Chutaria estreia no dia 01 de Janeiro de 2026.
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