Dirigido por Vera Egito, “Tremembé” explora o potencial do true crime nacional, incomodando o público que não entende sua premissa.
Após terminar de assistir Tremembé, nova série da Amazon Prime Video, que, segundo dados de O Globo, alcançou “5,73 milhões de buscas em seis dias, segundo levantamento da empresa de inteligência Timelens, e 1,36 milhão de menções em redes sociais”, além de ocupar o primeiro lugar entre os títulos mais vistos do streaming, fiquei surpreso com alguns comentários do público. Grande parte das críticas se repetia, muitas vezes com argumentos frágeis ou absurdos. Assim, nada mais justo do que construir uma análise crítica da série, com base justamente nestas percepções equivocadas.

Carolina Garcia em “Tremembé”- Divulgação Amazon Prime
Tremembé: romantização dos criminosos?
Voltemos um pouco no tempo. Um dos primeiros grandes filmes da história do cinema, O Grande Assalto ao Trem (1903, Edwin S. Porter), acompanha em 12 minutos um grupo de ladrões tentando roubar um trem. Apesar de os bandidos serem presos no final, o público torce por eles, afinal, a história é contada do ponto de vista dos assaltantes.
Mais de um século depois, o audiovisual evoluiu. A ascensão dos anti-heróis na década de 1960, impulsionada pela Nouvelle Vague e pela Nova Hollywood, trouxe protagonistas moralmente ambíguos. Já não buscamos personagens “bons”, mas sim humanos, capazes de atos terríveis, porém dignos de empatia, sendo esta complexidade algo essencial a qualquer boa narrativa.
No século XXI, especialmente nos últimos anos, o gênero true crime explodiu. Seja em podcasts como Modus Operandi (2020, Carol Moreira e Mabê Bonafé) ou em séries como Monstros (2021, Ryan Murphy e Ian Brennan), multiplicando-se as produções que exploram crimes reais de forma documental, ficcional ou híbrida.
Hoje, não falamos apenas de Patrick Bateman, Coringa ou Max Cady, mas de criminosos reais, que o público consome por curiosidade ou fascínio mórbido. É desconfortável, mas incontestável: essas histórias geram audiência e até notoriedade para os próprios criminosos. Tremembé é exemplo disso, afinal, após o lançamento da série, Suzane von Richthofen, atualmente em regime aberto, alcançou 100 mil seguidores no Instagram e teve um impulso em sua loja de produtos artesanais.
Mas seria isso culpa da série? Um “ode” à Suzane interpretada por Marina Ruy Barbosa? Não. Tremembé segue a tradição de produções que constroem retratos complexos de criminosos reais, como em Monstros, ou ficcionais, como em Coringa (2019, Todd Phillips). Se alguém enxerga estes personagens como exemplos de conduta, talvez o problema não esteja na série, e sim na percepção do espectador.
A ficção dirigida por Vera Egito, baseada nos livros de Ulisses Campbell, lança luz sobre criminosos brasileiros já conhecidos, ou não, do público, com atuações precisas que não despertam simpatia, mas empatia, reconhecendo-os como seres humanos, não monstros mitológicos.
Mesmo com quase dez personagens de destaque, Tremembé administra bem cada arco, sem perder de vista a essência: são pessoas horríveis, e a série não nos deixa esquecer disso. Os letreiros que indicam seus crimes e penas reforçam esse ponto, sem romantização, mas sem apagamento.
Marina Ruy Barbosa constrói uma Suzane manipuladora e perturbadora, enquanto Carolina Garcia, Elize Matsunaga, Anselmo Vasconcelos, Roger Abdelmassi, e Bianca Comparato ,Anna Carolina Jatobá, entre outros, completam um elenco sólido, em interpretações que equilibram ficção e documentário, resultando em uma fábula sombria, de ritmo novelesco, mas com densidade cinematográfica.

Felipe Simas e Kelner Macêdo em “Tremembé”- Divulgação Amazon Prime Video
Questão de tom e trilha sonora
Por ser uma ficção, Tremembé exagera de propósito na caracterização dos personagens, transformando-os em figuras quase monstruosas, como Abdelmassih, cuja presença em cena arrepia desde a primeira aparição.
Os diálogos e conflitos internos do presídio são amplificados, lembrando o estilo das telenovelas brasileiras, algo que também aparece em Beleza Fatal (2025, Raphael Montes), porém, aqui de forma bem mais estilística e exagerada: as personagens “não valem um real”, como resume Johnny Hooker na música Corpo Fechado, que encerra o primeiro episódio.
A trilha sonora é praticamente uma personagem à parte. De Ana Cañas e Pabllo Vittar à Debussy, Rita Lee, Gilberto Gil e Céu, a curadoria musical é ousada e irônica, alternando entre choque e humor. Cada escolha reforça o tom ambíguo da série: entre o grotesco e o divertido, o crime e o espetáculo. Tremembé sabe rir do absurdo sem banalizá-lo, lembrando o público de que está diante de uma novela, e não de um drama existencial à la Mindhunter (2019, Joe Penhall).
A fotografia reforça essa dualidade. Os planos abertos e a arte de produção contrastam o presídio feminino: cinza, frio e vazio, com o masculino: mais colorido e “alegre”. De um lado, o triângulo amoroso entre Suzane, Matsunaga e Sandrão, e ameaças diretas; de outro, Daniel Cravinhos se relacionando com a filha de uma agente penitenciária e Abdelmassih tentando fraudar um laudo médico, e estas tramas paralelas que tornam a série tão rápida e divertida de se assistir.
Violência, sexo e espetáculo demais?
Como toda obra sobre criminosos, Tremembé não foge da violência. Cada episódio aborda um crime específico, sendo respectivamente: Richthofen, Matsunaga, Jatobá, Sandrão e Abdelmassih, em cenas viscerais, cheias de sangue e drama, demonstrando estes humanos reais movidos pela ganância, vontades e desejos.
O desejo, aliás, é motor central da série. Abdelmassih deseja liberdade; Suzane, controle; Jatobá, rever os filhos. E dentro deste desejo, o sexo aparece como linguagem, raramente explícito, mas sempre presente. Há beijos, insinuações e assédios, nada mais ousado do que o permitido pela classificação indicativa, porém, ainda alvo de críticas de grande parte do público, talvez mais por ser uma produção brasileira do que pelo conteúdo em si.

Marina Ruy Barbosa em ‘Tremembé’- Divulgação Amazon Prime
Conclusão
Tremembé cumpre com excelência seu papel: adaptar por meio de um docuficção, histórias reais de criminosos famosos. Em cinco episódios ágeis, constrói um Vingadores da cadeia, em um espetáculo de horror e fascínio que diverte, provoca e gera debate.
Mais do que entretenimento, a série reacende o interesse por podcasts, livros e até entrevistas antigas, como a de Suzane com Gugu, que voltou a circular no YouTube após o lançamento, mostrando o poder cultural de uma produção que, ao mesmo tempo que incomoda, reflete o país que a consome.
Ao final, com um final aberto e números estrondosos no Streaming da Amazon Prime Video, é bem provável que Tremembé volte para uma segunda temporada, e com ainda mais barulho.
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