Uma das experiências que mais me chamou atenção no Rock in Rio 2026 não aconteceu em nenhum dos palcos. Ela está em uma arena própria da Cidade do Rock e propõe uma pausa de cerca de 30 minutos em meio à intensidade do festival. Foi assim que conheci o ECCO, espetáculo criado em parceria com a LightWire, que transforma tecnologia, música e natureza em uma experiência sensorial bastante particular.
O que mais me marcou foi justamente a maneira como o espetáculo consegue aproximar dois universos que, à primeira vista, poderiam parecer opostos. De um lado, existe uma espécie de força ancestral da floresta, presente nos movimentos, nos sons e nos elementos naturais. Do outro, está uma estrutura tecnológica sofisticada, com projeções, luzes, holografia e recursos digitais.
Em vez de um universo anular o outro, eles parecem conversar durante toda a apresentação.
A narrativa parte da floresta como origem do som e percorre elementos primordiais do planeta, como vento, água, raízes e fogo. A partir deles, o ECCO constrói uma reflexão sobre como o ser humano transforma aquilo que vem da natureza em música, arte e emoção.
É uma experiência que funciona muito mais pelo que provoca nos sentidos do que por uma narrativa tradicional. O espectador entra na arena e, durante alguns minutos, deixa de acompanhar a movimentação habitual do festival para simplesmente observar, ouvir e sentir. Foi justamente essa quebra de ritmo que achei interessante.
O Rock in Rio é um evento marcado por multidões, deslocamentos constantes e grandes apresentações. Há sempre alguma coisa acontecendo. Por isso, encontrar uma experiência que convida o público a parar também acaba sendo uma maneira diferente de viver o festival.
No meu caso, o ECCO me chamou atenção porque não utiliza a tecnologia apenas como demonstração de efeitos. As ferramentas tecnológicas estão a serviço de uma ideia maior, relacionada à natureza e à ancestralidade.
A água, por exemplo, ganha uma dimensão especialmente bonita durante o espetáculo. A representação de uma queda d’água é um dos momentos em que luz, movimento e projeção se encontram de maneira mais impactante. É quase como se a tecnologia tentasse recriar uma memória da floresta.
E existe algo interessante nessa escolha: quanto mais tecnológico o espetáculo se torna, mais ele parece tentar nos reconectar com algo primordial.
Essa relação também aparece nos bailarinos e nas coreografias. O corpo humano funciona como outra camada dessa mistura entre ancestralidade e tecnologia. Os movimentos não estão separados das projeções e da iluminação. Eles fazem parte do próprio cenário.
Os figurinos tecnológicos ajudam a potencializar esse efeito. O PixelWear, por exemplo, utiliza mais de 1.500 pixels de LED controlados individualmente. Já o NewDress foi desenvolvido com 1.000 metros de fibra óptica iluminados por LED.
São recursos impressionantes, mas o resultado não depende apenas deles. O que faz o ECCO funcionar é a combinação entre esses elementos.
A trilha sonora original também contribui para essa sensação. Com tecnologia surround e áudio imersivo, o som ocupa o espaço de uma maneira diferente de uma apresentação convencional. Não é apenas uma música tocando enquanto algo acontece diante do público. O som participa da construção do ambiente.
E talvez seja justamente por isso que a experiência tenha me parecido tão coerente dentro do Rock in Rio.
O festival nasceu e cresceu a partir da música, mas hoje oferece uma experiência muito mais ampla. Há gastronomia, ativações de marcas, espaços de convivência, arte, sustentabilidade, tecnologia e diferentes formas de entretenimento. O ECCO entra nesse contexto sem tentar competir diretamente com os shows.
Ele propõe outra coisa.
E foi justamente essa percepção que apareceu também nos relatos de pessoas que estavam vivendo o festival.
A guia turística Ana Carolina Silva, de 28 anos, moradora do Rio de Janeiro, está em sua segunda edição de Rock in Rio e decidiu começar a experiência visitando o ECCO. Para ela, a apresentação acabou sendo uma das grandes surpresas do festival.
“Eu amei o ECCO, um espetáculo bem dinâmico, com um jogo de luzes muito bonito e que fala bastante sobre a natureza. A parte da água e da queda da cachoeira achei incrível. É muito bom ter uma experiência como essa dentro do Rock in Rio, porque conseguimos parar por 20 minutos e ter um momento completamente diferente dos shows, inesquecível”, contou.
A fala dela resume bem uma das principais qualidades do espetáculo. O ECCO não exige que você escolha entre natureza e tecnologia. Ele coloca as duas no mesmo espaço e mostra como uma pode ajudar a contar a história da outra.
Outra experiência que me chamou atenção foi a de Luísa Faria. Na quinta edição de Rock in Rio, ela levou o filho, Pedro de La Torre, de 11 anos, para conhecer o festival pela primeira vez. E o dia começou justamente pelo ECCO.
“Muita gente vem ao Rock in Rio só pelos shows e acaba não sabendo que existem experiências como essa, que valeu muito a pena. O meu filho está vivendo o primeiro Rock in Rio e disse que foi uma grande surpresa. Ele ficou encantado com as luzes e os diferentes formatos do espetáculo. Acho que começar o festival assim tornou a experiência ainda mais especial para ele e a família”, relatou.
Para uma criança que está conhecendo o Rock in Rio pela primeira vez, começar por uma experiência desse tipo também muda a percepção sobre o que é o festival. E essa talvez seja uma das grandes forças do ECCO.
Depois de tantos anos acompanhando o Rock in Rio — primeiro como público e agora também como jornalista — percebo que o festival mudou muito. Os shows continuam sendo o coração do evento, mas existem cada vez mais possibilidades de construir uma experiência própria dentro da Cidade do Rock.
O ECCO representa bem essa transformação.
Ao juntar uma estética inspirada na floresta, movimentos que remetem à força ancestral, música e recursos tecnológicos de última geração, o espetáculo cria algo que não se resume a uma instalação tecnológica nem a uma apresentação de dança.
É uma experiência sensorial. E, no meio de um festival tão intenso, essa possibilidade de parar por alguns minutos e olhar para uma floresta recriada por luz, som e movimento acaba sendo uma das experiências que ficam na memória.
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