Durante muito tempo, o Lanterna Verde foi tratado no audiovisual como uma promessa que nunca encontrou a adaptação definitiva. Agora, com Lanternas, a DC Studios parece disposta a fazer diferente. A série não chega apenas para apresentar mais um herói ao novo Universo DC, mas para transformar a mitologia dos Lanternas em uma das bases desse universo.
E a escolha de John Stewart, interpretado por Aaron Pierre, como um dos protagonistas é especialmente importante. O personagem já conquistou diferentes gerações por meio dos quadrinhos e da animação Liga da Justiça, mas ainda não havia ganhado uma versão em live-action com o mesmo espaço. Lanternas pretende mudar isso ao colocá-lo ao lado de Hal Jordan, vivido por Kyle Chandler, em uma investigação que mistura ficção científica, policial e mistério.
A série, porém, guardava uma carta ainda maior. Tom King revelou que o terceiro episódio será dedicado à origem de John Stewart, reunindo elementos de diferentes períodos dos quadrinhos para criar uma versão condensada da trajetória do personagem. E a promessa ajuda a explicar por que a produção parece tão interessada em fazer de John o verdadeiro coração da história.
Tom King, roteirista de quadrinhos e um dos responsáveis pela série, explicou que a equipe não escolheu uma única história para adaptar a origem de John Stewart.
Em vez disso, os criadores buscaram elementos em diferentes momentos da trajetória do personagem. Entre as referências estão a primeira história de John escrita por Neal Adams, o trabalho de Dwayne McDuffie em Liga da Justiça Sem Limites, Odisseia Cósmica, histórias de Geoff Johns e a fase de Renascimento.
“Você poderá encontrar fragmentos dela na primeira edição de Neil Adams… nas histórias de Dwayne McDuffie em Liga da Justiça Sem Limites… em Odisseia Cósmica… em Geoff Johns… juntando tudo com Renascimento… Nós… compactamos tudo”, explicou King.

A declaração indica que o episódio não deve funcionar simplesmente como uma adaptação de uma HQ específica. A intenção é apresentar ao público uma versão de John Stewart que carregue diferentes aspectos construídos ao longo de décadas.
John Stewart finalmente ganha uma grande história em live-action
A importância do episódio aumenta porque a série já estabeleceu John como uma peça fundamental da narrativa.
Lanternas trabalha com duas linhas temporais. Em 2016, John ainda é um jovem Lanterna e acompanha Hal Jordan durante uma investigação em Rushville, Nebraska. O caso aparentemente envolve um episódio de violência local, mas rapidamente ganha contornos relacionados ao universo extraterrestre dos Lanternas.
Série Lanternas explicada, o que aconteceu com Hal Jordan?
Dez anos depois, John retorna ao mesmo local. É nesse momento que a série apresenta uma das maiores surpresas da estreia: Hal Jordan está morto.
O personagem é encontrado congelado nas arquibancadas de um estádio, com um tiro na cabeça e sem seu anel de poder.
A revelação muda completamente a dinâmica da série. O que inicialmente parecia ser uma história de parceria entre dois Lanternas passa a ser também uma investigação sobre o destino de Hal e, principalmente, uma jornada de amadurecimento de John.
A decisão de matar Hal logo no primeiro episódio foi considerada ousada até mesmo pelos próprios responsáveis pela produção.
Damon Lindelof, produtor executivo de Lanternas, contou que a equipe inicialmente imaginava que a DC Studios jamais permitiria uma mudança tão radical. A ideia, porém, acabou sendo aprovada.
A justificativa era simples: se John precisaria se tornar o centro da história, nada teria mais impacto do que perder justamente o mentor que deveria acompanhá-lo nessa trajetória.
Chris Mundy, showrunner da série, explicou que a equipe chegou a considerar a morte da xerife Kerry como o acontecimento que levaria John de volta a Rushville. A ideia foi descartada porque poderia reproduzir o chamado fridging, recurso no qual uma personagem feminina é prejudicada ou morta principalmente para impulsionar a trajetória de um personagem masculino.
A morte de Hal, por outro lado, colocaria uma questão muito mais importante para John.
O que acontece quando o aprendiz precisa seguir em frente sem o mentor?
A morte de Hal não significa que Kyle Chandler simplesmente desapareceu de Lanternas.

A produção trabalha com diferentes momentos da vida do personagem e também apresenta o conceito do Halograma, uma espécie de consciência de Hal armazenada em seu anel.
Chandler explicou que pensou em versões diferentes do personagem para cada período da história. O Hal mais jovem seria mais ingênuo, gentil e disposto a descobrir seu lugar no universo dos Lanternas. O personagem visto posteriormente já estaria mais endurecido pelas experiências que enfrentou.
A escolha permite que a série continue explorando a relação entre Hal e John mesmo depois da morte do primeiro.
Tom King também defendeu a decisão por entender que personagens precisam enfrentar perdas reais. Para ele, construir um universo de super-heróis não significa criar um mundo no qual nada tenha consequências.
A morte de Hal, segundo o roteirista, aumenta as apostas da série e terá consequências que deverão repercutir por muito tempo dentro do Universo DC.
O futuro de John Stewart no novo Universo DC
A história de John também precisa ser observada dentro de um contexto maior.
Lanternas faz parte do novo Universo DC desenvolvido por James Gunn e Peter Safran. E o público já conheceu outro Lanterna Verde desse universo: Guy Gardner, interpretado por Nathan Fillion em Superman.

Isso significa que a série precisa estabelecer como diferentes Lanternas coexistem e qual será a função de cada um dentro da nova continuidade.
John, nesse cenário, surge com uma vantagem narrativa importante. Ao contrário de uma simples participação especial, ele está sendo construído como protagonista de uma história própria.
O formato também diferencia Lanternas de outras produções de super-heróis. A série foi concebida como uma investigação policial com elementos de ficção científica, enquanto o mistério envolvendo Hal funciona como motor para a narrativa.
São oito episódios, lançados semanalmente pela HBO e HBO Max.
A repercussão da estreia também já produz um efeito interessante fora da própria série.
Os filmes animados relacionados aos personagens dos Lanternas Verdes chegaram ao Top 10 da HBO Max após a estreia de Lanternas, indicando que a chegada da produção live-action despertou novamente o interesse do público pela mitologia.
É um movimento importante para a DC, especialmente porque John Stewart possui uma ligação muito forte com a memória afetiva de quem cresceu assistindo às animações da Liga da Justiça.
Agora, o personagem terá a oportunidade de ser apresentado para uma nova geração em uma produção live-action com uma proposta mais adulta.
O episódio 3 pode ser decisivo para Lanternas
A promessa de Tom King torna o terceiro episódio particularmente importante.

Se os primeiros capítulos precisam apresentar o mistério, a relação entre Hal e John e as regras desse novo universo, o terceiro terá a missão de explicar quem é John Stewart e por que ele pode ser tão importante para o futuro da DC.
A estratégia de reunir referências de Neal Adams, Dwayne McDuffie, Liga da Justiça Sem Limites, Odisseia Cósmica, Geoff Johns e Renascimento também demonstra uma preocupação em respeitar diferentes versões do personagem sem ficar presa a uma única interpretação.
E talvez esse seja o ponto mais interessante de Lanternas. A série pode começar parecendo uma história sobre Hal Jordan e John Stewart, mas tudo indica que está construindo outra coisa: a passagem do bastão de um Lanterna para outro e a apresentação de John Stewart como um dos principais heróis da nova DC.
Se o episódio 3 entregar a origem prometida por Tom King, pode ser justamente o momento em que Lanternas deixa de ser apenas uma série sobre dois policiais cósmicos e passa a definir o lugar de John Stewart no futuro do Universo DC.
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