Dirigido por Nele Wohlatz, Dormir de Olhos Abertos se estende além do necessário em uma mensagem já clara desde os primeiros minutos.
O olhar do estrangeiro sobre o Brasil é sempre fértil para narrativas. Se para nós, brasileiros, certos comportamentos e reações parecem naturais, para quem chega de fora eles podem soar desconcertantes, principalmente grandes comemorações nacionais como o Carnaval. Nesse sentido, Dormir de Olhos Abertos funciona quase como um estudo de caso, um estudo de três personagens passando por experiências que muitas vezes passam despercebidas, sendo o intuito da produção ressaltar a solidão e o não pertencimento do imigrante.
A trama se organiza em forma de narrativa de moldura: acompanhamos a história de uma jovem chinesa, Kai, abandonada pelo namorado. E por meio de suas andanças por Pernambuco, se abre outras reflexões mais amplas sobre a vida de imigrantes chineses no Brasil, como em sua relação com o vendedor de guarda-chuvas Fu Ang, alguém que poderia ser seu amigo por conta de um senso de pertencimento semelhante, mas que o próprio universo não permite esta conexão.
Entre cenas de preconceito explícito, como a do “kung-fu”, e situações de exploração quase escravagista, exemplificada na relação da tia de Xiaoxin com seus funcionários, Nele Wohlatz mostra tanto a xenofobia dos brasileiros quanto o preconceito que os próprios chineses podem nutrir entre si, em uma produção que tirando os seus protagonistas, poucos personagens apresentam características moralmente aceitas, seja brasileiro ou chinês.

Cena de Dormir de Olhos Abertos- Divulgação oficial e foto por Victor Juca
Tudo isso é bem apresentado na primeira metade do filme, mas a narrativa insiste em repetir os mesmos sentimentos de rejeição, alongando-se sem acrescentar novas camadas. Essa sensação contrasta com a exuberante fotografia de Pernambuco, sobretudo de suas praias, que reforça ainda mais o abismo entre a beleza do ambiente e a angústia dos personagens, como se eles fossem pequenos demais para este universo tão grande. Até detalhes cotidianos, como um ar-condicionado ligado ou desligado, ganham peso como metáforas de desconforto constante, com os personagens nunca se encontrando satisfeitos, ou confortáveis, como exemplificado na conversa que Kai tem no bar, quando pergunta como parecer menos estrangeira, e somente ao seu final, de modo agri-doce, encontra um pouco de paz.
Com ritmo lento e observativo, a produção de Nele Wohlatz lembra em certos momentos O Paraíso Deve Ser Aqui (2019, Elia Suleiman) na medida que apresenta personagens passivos que apenas observam os absurdos ao redor, sem reações explosivas ou explicações em voz alta. Essa passividade, contudo, se torna extremamente cansativa, evidenciando o caráter contemporâneo da obra, mais próxima do retrato naturalista, algo tão marcante no cinema asiático atual, do que na narrativa clássica de três atos que é tão conhecida pelo cinema clássico, e que não funcionaria no caso de uma produção como Dormir de Olhos Abertos.

Cena de Dormir de Olhos Abertos- Divulgação oficial e foto por Victor Juca
Em seus 97 minutos, Dormir de Olhos Abertos talvez tivesse encontrado mais força em um curta-metragem, condensando melhor sua simbologia sem alongar uma mensagem já transmitida, apresentando um foco mais definido, sem digressões exageradas ou repetições temáticas que ao seu final não acrescentam nada de novo.
Exibido na 74ª edição do Festival de Berlim, onde recebeu o prêmio da crítica internacional (FIPRESCI), além das últimas edições do Festival do Rio e da Mostra SP, Dormir de Olhos Abertos estreia nos cinemas brasileiros em 11 de setembro pela Sessão Vitrine Petrobras.
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