Dirigido por Alessandra Stefani, Mycelia é um sombrio conto de fadas maior que sua própria narrativa
Há uma beleza particular em estruturar um conto de fadas em pleno 2025, sobretudo quando não se trata de uma adaptação clássica, mas de uma criação original que recorre a mitos e símbolos enraizados no inconsciente coletivo da audiência. Guilhermo Del Toro faz isso com maestria, e de forma semelhante, Mycelia consegue entrega um mundo único ao dialogar com histórias clássicas como a de Ártemis e Acteon, Apolo e Dafne, ou com os arquétipos reunidos por Clarissa Pinkola Estés em Mulheres que Correm com os Lobos (1989), permitindo que sua produção seja um espelho para estes mitos, e uma ampla porta para discussão.
A trama é simples, quase demasiada: Alberto, solitário caçador de cogumelos, apaixona-se por Mycelia, uma ninfa da mata. Seu desejo logo se torna perseguição, e em sua ânsia de moldá-la, poda suas qualidades e rompe sua ligação com a natureza, assim, trazendo para si o resultado inevitável da ruína. Num conto de fadas onde a força pertence às mulheres da floresta, o homem sempre perde diante da natureza e do destino como um todo.

Cena de Mycelia- Divulgação CineFantasy
Stefani constrói uma experiência quase experimental, de ritmo lento, que convida à imersão gradual nesse mundo tão autoral e lúdico, porém, da mesma forma extremamente passível de se acreditar, remetendo à tradição oral dos contos de fadas e podendo facilmente se imaginar a narrativa iniciando com “Era uma vez um caçador que se apaixonou por uma dríade… e esse amor foi sua perdição”.
A trilha sonora contribui para esse estado onírico, alternando silêncios arrebatadores, em que somente se escuta a amedrontadora natureza, com uma musicalidade que eleva a obra a um plano etéreo, sobretudo no cântico final. Não há espaço para finais felizes: como nos mitos gregos, a dor é inevitável. Nesse percurso, a câmera encontra beleza em cada plano, e a nudez de Laura Pizzirani surge não como erotização, mas como pureza bíblica, uma Eva em seu Éden particular, corrompida pela cobiça de Alberto, que a mutila acreditando agir em benefício da mulher que é símbolo da própria natureza como um todo.

Laura Pizzirani em cena de Mycelia- Divulgação CineFantasy
Assistindo, percebi que as conexões que meu pensamento elaborava eram mais estimulantes que a própria narrativa. Apesar de belíssima, sobretudo na fusão de Mycelia com a árvore, clara evocação à resolução encontrada no mito de Apolo e Dafne, a produção se alonga em momentos cuja resolução já se anuncia desde o início, no segundo que Alberto coloca os olhos em Mycelia, já sabíamos que ele desejava domá-la. Onde Guillermo del Toro maneja seus contos com ritmo ágil, como em O Labirinto do Fauno (2006), Stefani parece titubear em marcar os pontos de virada, ainda que haja instantes potentes, como a saída de Mycelia da floresta, que transforma a estética da produção de forma arrebatadora.
A mensagem de não desafiar a natureza, já foi amplamente explorada, de modo literal e alegórico, como em Mãe! (2017, Darren Aronofsky). Assim, apesar de seu lirismo, dos closes encantados em cogumelos e do doce retrato das mulheres da mata que vão desde Dríades até Naíades, ninfas das águas, Mycelia não consegue se destacar como longa-metragem, sendo excessivo onde poderia ser incisivo, fortalecendo tanto a mensagem a ponto da exaustão, porém, como curta-metragem, seria talvez perfeito, e inesquecível.
Mycelia foi exibido no festival CineFantasy, realizado de 02 a 14 de setembro no CCSP (Centro Cultural São Paulo), a programação completa pode ser consultada no site oficial.
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