Dirigido por Joachim Trier, Valor Sentimental retrata o luto, a dor e o lento processo de cicatrização de uma família que tenta se reencontrar depois de anos de afastamento
Relações humanas são complexas, e muitas vezes só percebemos o impacto que causamos na vida do outro quando nos afastamos o suficiente para olhar de fora. No caso da família, onde o vínculo é inevitável e as expectativas são incontornáveis, esse distanciamento pode se tornar um abismo. Com muita sabedoria, Joachim Trier observa este abismo pelas lentes delicadas a francas que marcam sua filmografia, revelando como traumas geracionais, ressentimentos e silêncios moldam as relações ao longo do tempo. Apesar das feridas, ainda há amor e a partir deste amor imperfeito, resistente e profundamente humano que nasceu Valor Sentimental.
A trama acompanha o reencontro entre Gustav, um renomado diretor de cinema, e suas duas filhas, Agnes e Nora. Quando oferece a Nora, uma atriz de teatro consagrada, o papel principal de seu novo filme, Gustav tenta um gesto de reconciliação, mas o convite é recusado, e o papel vai parar nas mãos de Rachel Kemp, uma jovem estrela de Hollywood. A presença de Rachel desequilibra ainda mais a frágil dinâmica familiar, transformando-se no catalisador de antigas tensões e discussões mal resolvidas.

Stellan Skarsgârd e Renate Reinsve em cena de “Valor Sentimental”- Divulgação Festival do Rio
Enquanto Nora busca consolo em um relacionamento extraconjugal, Gustav tenta moldar Rachel como uma espécie de substituta para a família que perdeu, e a partir deste jogo de projeções e ressentimentos, Trier constrói um retrato sutil sobre o desejo de ser compreendido, e o medo de repetir os mesmos erros.
Com seu habitual equilíbrio entre melancolia e humor, Joachim Trier faz de Valor Sentimental um drama contido, mas de enorme poder emocional. O roteiro, escrito novamente em parceria com Eskil Vogt, encontra espaço para pequenas explosões de leveza, que tornam o filme mais próximo da realidade, na medida que as conversas à mesa, os silêncios constrangedores e as memórias compartilhadas em meio a discussões revelam personagens complexos, frágeis e profundamente humanos.
Stellan Skarsgård entrega uma de suas atuações mais maduras, construindo Gustav com uma mistura de arrogância, culpa e vulnerabilidade, enquanto Renate Reinsve, que já havia emocionado o público em A Pior Pessoa do Mundo, confirma aqui seu talento e sensibilidade ao dar vida a Nora, uma mulher dilacerada entre o amor pelo pai e o ressentimento por sua ausência, e por fim, Elle Fanning, como Rachel, é o elo entre o velho e o novo, a juventude e a desilusão, trazendo frescor e empatia à história.
A fotografia, de tons suaves e iluminação difusa, reforça a atmosfera nostálgica do filme na medida que Trier utiliza planos estáticos que permitem aos atores existirem diante da câmera com naturalidade, revelando emoções sem pressa.

Stellan Skarsgârd e Elle Fanning em cena de “Valor Sentimental”- Divulgação Festival do Rio
Valor Sentimental apresenta uma sensação quase onírica que permeia a narrativa, como se o passado ainda estivesse presente em cada canto da tão querida casa, cheia de memórias, fantasmas, e valores sentimentais. O desfecho, construído em um belíssimo plano-sequência previamente discutido dentro do próprio filme, amarra a obra com uma simbologia poderosa e profundamente emocional.
Apresentado em sessão lotada no 27º Festival do Rio, Valor Sentimental confirma Joachim Trier como um dos grandes cronistas da sensibilidade contemporânea. É uma produção sobre o que resta quando tudo já foi dito, sobre a possibilidade de amar apesar da dor, e de perdoar mesmo sem esquecer, afinal, em meio à desordem das relações familiares, Trier nos lembra que o afeto, por mais imperfeito que seja, ainda é o que nos mantém de pé.
Distribuído pela Retrato Filmes e pela MUBI, Valor Sentimental estreia nos cinemas no dia 25 de Dezembro.
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