Dirigido por Daniel Lieff e Vera Egito, ‘Tremembé’ transforma o fascínio nacional pelo true crime em retrato ficcional e provocante da vida em um presídio
(Baseado no primeiro episódio, exibido em sessão especial do 27º Festival do Rio, em 08/10/2025.)
Se existe duas coisas que o público brasileiro ama com devoção é novela e true crime. O sucesso do remake de Vale Tudo (2025, Manuela Dias) e a popularidade de podcasts e séries sobre serial killers, nacionais e internacionais, comprovam essa paixão. Ciente disso, a Amazon Prime Video, que já investiu em produções como Maníaco do Parque (2024, Maurício Eça) e A Mulher da Casa Abandonada (2025, Chico Felitti), aposta agora em Tremembé, série que mistura ficção e documentário para revisitar o chamado “presídio dos famosos”.
Inspirada em figuras reais do crime brasileiro, Tremembé não esconde o objetivo de unir dois de seus maiores chamariz em somente uma personagem: Suzane von Richtoffen e Marina Ruy Barbosa. A partir de seu ponto de vista que o primeiro episódio se estrutura, e é também por meio dela que o espectador é seduzido. Marina Ruy Barbosa entrega uma de suas atuações mais contidas e intensas, afastando-se do glamour habitual sem abrir mão do magnetismo que a consagrou, tornando Suzane uma espécie de sereia carcerária: manipula, encanta e domina o ambiente, se fazendo de inocente, mas, sempre com um plano, tomando as rédeas mesmo sendo a recém-chegada de um universo já hierarquizado.

Marina Ruy Barbosa em cena de Tremembé- Divulgação Festival do Rio
As comparações com Orange Is the New Black (2013, Jenji Kohan) são inevitáveis, e válidas. Mas Tremembé se diferencia pelo olhar profundamente brasileiro, tanto na forma quanto no conteúdo. A trilha sonora, rica e pulsante, reforça identidades e tons de cada personagem, enquanto a montagem aposta em ritmo ágil e apresentações rápidas, usando textos descritivos na tela para situar o espectador. A liberdade criativa permite cruzar personagens que formam um microcosmo simbólico do sistema prisional, e da cultura midiática do país, atraindo ainda mais a atenção do público.
O episódio inaugural se divide em dois núcleos: o presídio feminino, onde reina a tensão entre Suzane e as demais detentas, e o masculino, onde Daniel Cravinhos nos leva por um ambiente mais leve e até fraternal. A diferença de tons é sublinhada pela fotografia: fria, cinzenta e decadente no feminino, enquanto o masculino é colorido e até solar, um contraste também presente na narrativa.
A direção de arte e o design de produção mantêm-se em harmonia com a proposta, mas é o elenco que realmente sustenta o peso da série. Carol Garcia e Letícia Rodrigues brilham, esta última em uma impressionante performance como Sandrão, peça central de um triângulo amoroso que promete movimentar os próximos capítulos. O lado masculino, embora menos complexo por enquanto, ganha força nos minutos finais com a perturbadora presença de Anselmo Vasconcelos.

Carol Garcia e Leticia Rodrigues em cena de Tremembé- Divulgação Festival do Rio
Em ágeis 50 minutos, Tremembé estrutura um universo de tensões, vaidades e poder, no qual cada personagem tem o seu momento de brilhar. A minissérie, com apenas cinco episódios, parece curta demais para o potencial do material, com um enredo e estrutura mais semelhante de uma telenovela moderna, do que um produto de streaming tradicional. Mas talvez esteja aí seu maior trunfo: unir as páginas de fofoca e os podcasts amados, com a crueza do documentário e a ousadia estética que a TV aberta dificilmente permitiria.
Mais do que recontar crimes já conhecidos, Tremembé explora o que vem depois do julgamento: as relações, os desejos e a disputa por poder entre pessoas que perderam a liberdade, mas não a vaidade, ou a vontade de ser soberano, e ao final do primeiro episódio, percebemos que a série ainda tem histórias por contar, seja nestes 5 episódios iniciais, quanto além.
“Tremembé” estreia em 31 de outubro no Amazon Prime Video.
Siga-nos e confira outras dicas em @viventeandante e no nosso canal de whatsapp !



