Dirigido por Guillermo Del Toro, Frankenstein mostra a força do cineasta mexicano em o seu retrato estético e humanização das piores criaturas
Guillermo Del Toro é um dos cineastas mais autorais da atualidade. Desde suas primeiras produções, demonstra um senso estético apurado, especialmente no cuidado com a direção de arte e de fotografia, tendo flertado com todos os tipos de produções, porém é quando abraça a fantasia, a fábula e o mágico que o diretor realmente brilha, como visto em O Labirinto do Fauno (2006) e Hellboy (2004).
As criaturas grotescas e monstruosas de Del Toro são, paradoxalmente, mais humanas do que os próprios humanos que as cercam. Sempre há nelas um senso de drama e empatia. Um exemplo marcante está em Hellboy II: O Exército Dourado (2008), na cena em que Abe e Hellboy cantam Can’t Smile Without You (Barry Manilow, 1978), revelando sentimentos genuinamente humano, traço comum entre as criações do diretor e central em sua adaptação de Frankenstein.
Desde 2007, Del Toro afirmava que Frankenstein era o filme dos seus sonhos, como visto em sua declaração de 2016:
“Frankenstein para mim é o ápice de tudo. Parte de mim quer fazer uma versão dele, parte de mim tem medo de fazê-lo há mais de 25 anos. Eu sonho em fazer o maior Frankenstein de todos os tempos, mas, quando o fizer, estará feito. Seja ótimo ou não, está feito. Você não pode mais sonhar com isso. Essa é a tragédia de um cineasta.”

Mia Goth em ‘Frankenstein’- Divulgação NETFLIX
A criatura de Mary Shelley sempre inspirou sua carreira talvez por ser o monstro mais trágico de todos: alguém criado contra a própria vontade, torturado, impedido de ter paz, mas que apenas deseja ser reconhecido e amado como igual, e após o sucesso estrondoso de Pinóquio (2022), o diretor finalmente pôde realizar esse sonho.
No roteiro, Del Toro explora com profundidade o subtítulo do romance de Shelley, Frankenstein, ou o Prometeu Moderno (1818), e incorpora referências mitológicas e religiosas ao longo da narrativa, mostrando a criatura, impossibilitada de morrer, sofrendo não por suas ações, mas por simplesmente existir, vítima de um ciclo eterno de violência ao qual nunca quis pertencer, além dos fortes embates entre criador e criatura.
A adaptação segue fielmente o livro, alternando entre as perspectivas de Victor Frankenstein e de sua criatura. Visualmente, é uma obra deslumbrante: a fotografia é digna da tela grande, a trilha de Alexandre Desplat constrói um épico, e a direção de arte impressiona, especialmente nos cenários, como a torre de Victor, e nos figurinos, com destaque para o vestido vermelho da mãe de Victor e o azul vibrante de Elizabeth.
É uma dádiva que Del Toro tenha conseguido realizar o projeto com o apoio da Netflix, contudo, restringir uma obra tão visualmente potente a exibições limitadas e depois ao streaming, onde pode ser assistida em telas de celular, é quase uma ironia. Cada plano merece ser contemplado no cinema, especialmente os que retratam as paisagens do Alasca ou os delírios de Victor Frankenstein.
No elenco, Jacob Elordi entrega a melhor performance de sua carreira como a Criatura, enquanto Oscar Isaac interpreta um Victor mais violento e radical do que o retratado por Shelley. A presença de Charles Dance como o pai de Victor reforça o espelhamento entre criador e criatura, Victor se torna o reflexo de sua própria origem, ainda assim, apresenta um arco ofuscado pela jornada emocional da Criatura, que brilha em momentos como a clássica cena do encontro com o homem cego, uma das mais tocantes do livro e das adaptações anteriores, como A Noiva de Frankenstein (James Whale, 1935).

David Bradley em ‘Frankenstein’- Divulgação NETFLIX
Apesar de alguns problemas de ritmo e da “barriga” narrativa, Frankenstein é uma das obras mais pessoais e maduras de Del Toro, e possivelmente a adaptação mais fiel e emocionalmente poderosa já feita da obra-prima de Mary Shelley.
Produzido pela Netflix, Frankenstein terá sua última exibição na Mostra SP em 20 de outubro e chega aos cinemas selecionados a partir do dia 23, antes do lançamento oficial na plataforma.
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