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Bruna Linzmeyer em cena de Virtuosas- Divulgação Olhar Filmes
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Virtuosas’ é irônico retrato da sociedade brasileira

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 22 de outubro de 2025
6 Min Leitura
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Bruna Linzmeyer em cena de Virtuosas- Divulgação Olhar Filmes
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Dirigido por Cíntia Domit Bittar, Virtuosas se utiliza da ideia de uma seita para explorar as hipocrisias e contradições do ideal feminino ainda muito presente em nossa sociedade.

Existe um fascínio mórbido por produções que envolvem seitas, não apenas pelo seu vínculo com produções de horror, promessas de elevação espiritual ou pela construção de novas sociedades, mas também pela proximidade que mantêm com a realidade. De Charles Manson às “seitas” modernas, religiosas, digitais ou comportamentais, o horror se manifesta justamente onde o discurso de pureza e redenção parece mais convincente, sendo deste ponto que parte Virtuosas.

Inspirado pelo provérbio 31 da Bíblia, que descreve a mulher virtuosa como submissa, trabalhadora e devotada à família, o filme subverte o conceito para refletir sobre os ideais das chamadas tradwives, esposas tradicionais que vivem apenas para o bem do marido e dos filhos, permitindo que Cíntia Bittar construa um retrato sarcástico e perturbador do feminino domesticado.

Bruna Linzmeyer em cena de Virtuosas- Divulgação Festival do Rio

Bruna Linzmeyer em cena de Virtuosas- Divulgação Festival do Rio

A narrativa acompanha Virginia Heinzel, Bruna Linzmeyer, uma líder carismática da ordem das “mulheres virtuosas”. Em estilo quase motivacional, ela prega sobre como alcançar a plenitude feminina por meio da obediência, da fé e da aparência impecável, uma verdadeira guru do patriarcado, que mistura autoajuda com doutrina moral, algo não muito distante do que vimos hoje, e que já foi explorado em outras produções nacionais como Medusa (2023, Anita Rocha da Silveira). Ao mesmo tempo, seguimos Germina, a “heroína” que observa tudo de fora, o olhar do público diante desse universo de absurdos.

No retiro espiritual promovido por Virginia, acompanhamos um desfile de hipocrisias e crenças folclóricas, onde as mulheres participam de exercícios coletivos, rituais e reflexões que soam perigosamente familiares. Entre esses momentos, surge até uma superstição regionalista que envolve uma bruxa e um cordão mágico que fará o bebê chorar, um lenda que ganha corpo pela força da crença coletiva. O tom beira o horror, mas Virtuosas encontra no humor e na ironia suas armas mais afiadas, rindo daquilo que, em outro contexto, seria simplesmente aterrorizante.

As integrantes do grupo representam arquétipos reconhecíveis da mulher brasileira: a mãe abnegada, a amiga fiel e cega, a influenciadora, a intrusa e a líder, com cada uma compondo um mosaico de comportamentos que formam o retrato sufocante de um ideal impossível. Na medida que o cerco vai se fechando, o que parecia um caminho de autoconhecimento se revela uma espiral de manipulação e fanatismo, e percebemos como o foco da narrativa não é na heroína.

Virginia Heinzel é o centro magnético da narrativa, sustentada pela poderosa performance de Bruna Linzmeyer, que entrega uma figura complexa, simultaneamente sedutora e repulsiva, sendo o reflexo distorcido das “mulheres poderosas” e influenciadoras que dominam o discurso público, aquelas que, em nome da autossuficiência e do controle, reproduzem os mesmos sistemas que afirmam combater. Sua contradição é o coração do filme: colocando em embate o poder como farsa e a fé como espetáculo.

Bruna Linzmeyer, Juliana Lourenção, Maria Galant, Sarah Motta e Brisa Marques em cena de Virtuosas- Divulgação Festival do Rio

Bruna Linzmeyer, Juliana Lourenção, Maria Galant, Sarah Motta e Brisa Marques em cena de Virtuosas- Divulgação Festival do Rio

Não conhecemos o passado de Virginia além das manchetes, mas sabemos o suficiente para perceber suas falhas: ela prega a pureza enquanto desrespeita suas próprias regras, promete libertação enquanto aprisiona. Quando Germina descobre que o grande sonho da líder é uma mentira, o castelo desmorona e o grupo mergulha em um caos tão grotesco quanto cômico, tornando este humor uma forma de horror.

Esteticamente, Virtuosas opta por planos longos e movimentos sutis de câmera, que ao mesmo tempo esconde algo que ainda não deve ser revelado, e permite que as atrizes respirem dentro das cenas, explorando as nuances da performance, resultando em um retrato íntimo e incômodo, que não julga suas personagens, mas as observa com ironia e empatia, levando a uma produção que usa do humor e do grotesco para discutir o fanatismo, deixando claro que ele está bem mais perto do que parece.

Distribuído pela Olhar Distribuidora e pela Filmes do Estação, Virtuosas lotou sessões no 27º Festival do Rio e segue em exibição na Mostra SP, com sessões nos dias 27 e 29 de outubro.

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Tags:Cinemacinema brasileirocinema nacionalCrítica VirtuosasMostra SPVirtuosas
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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.
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