Dirigido por Sam Raimi, Socorro! aposta em um elenco enxuto e em dinâmicas de poder para criar um thriller eficiente sobre sobrevivência.
Não é segredo que, criativamente, vivemos um impasse no campo audiovisual. Pouquíssimos filmes são realmente percebidos como inovadores, enquanto a grande maioria oferece apenas um novo olhar sobre produções já existentes, recorrendo a pontos de virada que reorganizam dinâmicas previamente conhecidas.
Cito como exemplo, Dan O’Bannon e Ronald Shusett, roteiristas de Alien, o 8.º Passageiro (1979, Ridley Scott), que fizeram o pitching do projeto ao defini-lo como “‘Tubarão’ no espaço”. Já Socorro! pode ser entendido como um encontro entre Náufrago (2000, Robert Zemeckis) e Louca Obsessão (1992, Rob Reiner), e só por essa combinação, uma boa dose de entretenimento já estaria prometida.
O filme de Zemeckis é evocado pelo cenário tropical e isolado, que coloca uma funcionária introvertida e seu chefe babaca sozinhos em uma ilha deserta. À medida que as dinâmicas de poder se transformam, Linda Liddle, Rachel McAdams, revela uma força marcada pela loucura, carregando o filme com graça, naturalidade e violência, aproximação direta com a obra de Reiner.

Rachel McAdams em ‘Socorro!’- Divulgação 20th century Studios
Com uma estética quase teatral, resultado de um cenário praticamente único e de apenas dois personagens em cena, a narrativa repete ciclos de união, rompimento e traição, levando ambos aos extremos da sobrevivência humana. Esse formato se mostra um terreno fértil para Sam Raimi se reconectar com suas raízes no horror, após uma passagem pouco inspirada pelo Universo Cinematográfico da Marvel.
Embora alguns efeitos especiais deixem a desejar, comprometendo a imersão por parecerem artificialmente falsos, a direção de Raimi se concentra menos no espetáculo e mais na construção de atmosfera. O interesse não está apenas nos limites da sobrevivência, mas nos da própria humanidade, e em como um pequeno empurrão do destino pode revelar potenciais ocultos. Essa ideia se materializa em Linda Liddle, uma personagem que merece atenção especial.
Ao longo de Socorro!, acompanhamos uma jornada de libertação tanto interna quanto externa, que transforma uma Linda inicialmente contida e estranha em uma mulher cheia de vida. Um detalhe curioso está na escolha do nome da protagonista: “Linda Liddle” soa apagado e pouco memorável, assim como a personagem no início da narrativa, antes de se tornar uma força motriz que encontra propósito em sua própria existência.
Ciente do alcance dramático de Rachel McAdams, o filme a conduz a extremos que vão da intimidade à loucura caótica. Enquanto Bradley, Dylan O’Brien, surge como seu contraponto passivo, em uma dinâmica que remete ao papel de James Caan em Louca Obsessão. A fotografia reforça essa relação ao alternar planos abertos e fechados entre seus personagens, os aproximando e os afastando, além de mudanças de ponto de vista que ampliam a imersão nesse cenário de “sobrevivência” compartilhada, e que permite até mesmo algumas quebras da quarta parede.

Dylan O’Brien em ‘Socorro!’- Divulgação 20th century Studios
Apesar de se estender além do necessário e demonstrar certo receio em explorar o horror de forma mais radical, algo inesperado para um cineasta tão ousado quanto Raimi, Socorro! se mantém eficiente como entretenimento. A história, ainda que pouco original, compreende a força de seu elenco e aposta em uma estrutura universal de redenção e inversão de valores. O resultado culmina em um desfecho que remete excessivamente a Triângulo da Tristeza (2022, Ruben Östlund), mas que, graças ao charme e às inspirações clássicas, consegue se sustentar como uma obra própria.
Distribuído pela 20th Century Studios Brasil, Socorro! estreia nos cinemas no dia 29 de janeiro.
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