A promessa de uma vida mais equilibrada nunca esteve tão presente. Rotinas matinais perfeitas, dietas milagrosas, rituais de autocuidado e técnicas para controlar a mente se espalham pelas redes sociais e pelo mercado editorial como soluções para o cansaço, a ansiedade e a sensação constante de insuficiência. É justamente esse universo que a jornalista americana Rina Raphael coloca sob análise em O culto do bem-estar, lançamento da Editora Contexto.
A obra investiga a cultura do bem-estar e do autocuidado a partir de um olhar crítico sobre uma indústria que movimenta trilhões de dólares no mundo. Em vez de tratar o tema como tendência inofensiva, Raphael examina como práticas legítimas de cuidado passaram a ser vendidas como obrigação moral e sinal de desempenho pessoal.
Ao longo do livro, a autora mostra como o discurso do autocuidado deixa de ser um apoio e passa a funcionar como métrica de sucesso individual. A ideia de que é possível “dar conta de tudo” se a pessoa seguir o método certo desloca para o indivíduo a responsabilidade por problemas que têm origem em jornadas de trabalho intensas, desigualdades sociais e ausência de redes de apoio.
Nesse cenário, o bem-estar deixa de ser direito e vira tarefa. Se a pessoa continua exausta, ansiosa ou sobrecarregada, a culpa recai sobre ela mesma, que supostamente não meditou o suficiente, não organizou a rotina de forma ideal ou não escolheu o suplemento correto.

Mulheres no centro da engrenagem
Raphael dedica atenção especial à experiência feminina. Historicamente menos estudadas pela ciência e mais cobradas socialmente, as mulheres se tornam o principal público de um mercado que transforma vulnerabilidade em falha pessoal. A pressão para ser produtiva, saudável, emocionalmente equilibrada e esteticamente adequada se intensifica sob o rótulo de autocuidado.
O que deveria aliviar a sobrecarga acaba ampliando a lista de exigências. Alimentação perfeita, rotina de exercícios, práticas de relaxamento e desenvolvimento espiritual passam a compor um pacote de desempenho contínuo, difícil de sustentar na vida real.
A sedução da promessa de controle
A autora percorre os principais pilares do movimento do bem-estar, como alimentação, exercícios, gerenciamento do estresse e espiritualidade, para mostrar como o desejo legítimo de cuidar de si foi gradualmente capturado por narrativas que prometem controle total sobre o corpo, a mente e o futuro.

Em contextos de instabilidade econômica e emocional, essa promessa se torna ainda mais sedutora. Produtos, protocolos e rituais aparecem como atalhos para segurança e equilíbrio, mesmo quando ignoram as condições concretas de vida de quem os consome.
Embora parta do contexto norte-americano, O culto do bem-estar dialoga diretamente com a realidade brasileira, onde o vocabulário do autocuidado se populariza rapidamente nas redes sociais, consultórios e no mercado de cursos e conteúdos digitais.
A proposta do livro não é ridicularizar quem busca alívio nem negar a importância do cuidado pessoal. O foco está em questionar a lógica do atalho e a transformação de práticas de apoio em exigências permanentes de controle emocional.
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A edição brasileira conta com prefácio da psicóloga Ilana Pinsky, que aproxima o debate do cenário nacional e reforça a diferença entre cuidado e marketing, ciência e promessa, responsabilidade e culpa.
Serviço – O culto do bem-estar
Livro: O culto do bem-estar
Autora: Rina Raphael
Editora: Editora Contexto
Páginas: 400
Tradução: Marcella de Melo Silva
Prefácio: Ilana Pinsky
Lançamento no Brasil: 10 de fevereiro



