O Carnaval brasileiro nasce da mistura de culturas, resistências e encontros que atravessam gerações. Nesse processo, mulheres tiveram papel decisivo para preservar tradições, fortalecer o samba e transformar a festa em um dos maiores símbolos culturais do país. Para jogar luz sobre essas trajetórias, a Disal reúne obras que resgatam o protagonismo feminino na construção da memória do Carnaval.
Muito antes dos desfiles grandiosos e da indústria do entretenimento, eram mulheres negras, lideranças comunitárias e artistas que mantinham vivas as rodas de samba, os saberes religiosos e as redes de sociabilidade que sustentaram o nascimento do Carnaval urbano.
As tias baianas e a base do samba
Entre o fim do século XIX e o início do XX, as chamadas tias baianas tiveram papel central na formação do samba carioca. Vindas principalmente da Bahia para o Rio de Janeiro, essas mulheres criaram espaços de acolhimento, celebração e resistência cultural em um período em que o samba era perseguido e criminalizado.

Um dos nomes mais emblemáticos é o de Tia Ciata, considerada uma das grandes articuladoras da vida cultural negra no Rio. Em sua casa, na região da Praça Onze, músicos se reuniam para tocar e cantar, preservando tradições do samba de roda e de matrizes africanas. É nesse ambiente que teria surgido Pelo Telefone, composição de Donga, frequentemente apontada como o primeiro samba gravado.
Mulheres que romperam barreiras no Carnaval
Décadas depois, outra trajetória feminina mudaria os rumos do samba. Dona Ivone Lara tornou-se a primeira mulher a integrar a ala de compositores do Império Serrano, abrindo espaço em um território historicamente dominado por homens. Antes do reconhecimento na música, ela atuou por 37 anos na enfermagem, mostrando que sua carreira artística floresceu mesmo após os 50 anos.
Sua obra e sua presença ajudaram a consolidar o lugar das mulheres como criadoras, compositoras e intérpretes no universo do samba e do Carnaval, inspirando novas gerações.
Outra pioneira fundamental é Chiquinha Gonzaga, que, ainda no século XIX, já desafiava convenções sociais ao se dedicar à música e defender a cultura popular brasileira. Sua trajetória, marcada por enfrentamentos e conquistas, ajudou a abrir caminhos para a presença feminina na cena musical que mais tarde dialogaria diretamente com o Carnaval.
Livros que resgatam essas histórias
A seleção da Disal apresenta títulos voltados a diferentes públicos, incluindo jovens leitores, que ajudam a compreender como essas mulheres influenciaram não apenas a festa, mas a própria identidade cultural brasileira.
Entre os destaques está o livro Tia Ciata, a Grande Mãe do Samba, que leva o leitor a um passeio pela chamada Pequena África, no centro do Rio, território fundamental para a consolidação do samba. A obra mistura narrativa ficcional e elementos históricos para apresentar a importância da matriarca na formação cultural da cidade.
Já Dona Ivone Lara e o Sonho de Sambar e Encantar traz uma biografia ilustrada que percorre a infância, a carreira na área da saúde e a consagração artística da sambista, mostrando como sua trajetória é símbolo de perseverança e talento.
Outro título é Canto de Rainhas, do jornalista Leonardo Bruno, que reúne histórias de diversas mulheres que enfrentaram machismo e racismo para se firmar no samba. Ao acompanhar essas trajetórias, o autor constrói um panorama das transformações na música brasileira e nas conquistas femininas ao longo das décadas.
Para o público infantojuvenil, Jovem Chiquinha Gonzaga apresenta a infância e a juventude da compositora, destacando sua luta para seguir a carreira musical em uma sociedade repleta de restrições às mulheres.
Mais do que personagens do passado, essas mulheres seguem como referência de força, criatividade e resistência, ajudando a lembrar que o Carnaval, além de festa, também é espaço de história, identidade e transformação social.
Serviço
Editora: Disal
Títulos:
Tia Ciata, a Grande Mãe do Samba
Dona Ivone Lara e o Sonho de Sambar e Encantar
Canto de Rainhas
Jovem Chiquinha Gonzaga



