Dirigido por Lee Sang-il, Kokuho: O Preço da Perfeição é épico de contornos shakesperianos que, embora impressione, testa a resistência do espectador com repetições e ritmo irregular
William Shakespeare consolidou-se como um dos maiores dramaturgos da história por sua capacidade de capturar a essência humana em toda a sua complexidade: ambição, inveja, desejo, culpa, redenção. Suas tragédias frequentemente orbitavam intrigas familiares, disputas por poder e amores atravessados por hierarquias e destino. Em Kokuho: O Preço da Perfeição, esses mesmos elementos são transpostos para o universo do teatro Kabuki, onde tradição e linhagem pesam mais do que puramente o talento.
Ao longo de suas quase três horas de duração, Kokuho: O Preço da Perfeição estrutura uma narrativa que acompanha Kikuo, aprendiz adotado pelo consagrado ator Hanai Hanjiro, e Shunsuke, filho biológico do mestre. O que começa como amizade evolui para rivalidade, ressentimento e, finalmente, reconciliação, uma trajetória trágica que remete às grandes peças elisabetanas. A construção desse arco é sólida, e Lee Sang-il demonstra pleno domínio da progressão dramática ao explorar o conflito entre sangue e mérito, herança e vocação, e principalmente a aceitação que buscamos como artistas.

Cena de Kokuho: O Preço Da Perfeição- Divulgação Sato Company
No entanto, a ambição narrativa cobra seu preço. A decisão de transformar a ascensão, queda e redenção de Kikuo em um épico de longa duração traz peso emocional, mas também dilui o impacto de determinados momentos. Há repetições de conflitos e extensas sequências de apresentação que, embora tecnicamente belas, interrompem a fluidez da narrativa. O filme não chega a perder o foco, mas estende situações que poderiam ser resolvidas com maior concisão, preservando a potência dramática sem sacrificar o ritmo.
Esteticamente, a produção é irretocável. A fotografia privilegia enquadramentos limpos e composições que valorizam a dança e a expressividade corporal, permitindo que o espectador absorva a grandiosidade das encenações. A câmera alterna entre planos abertos, que celebram o espetáculo, e aproximações que intensificam o drama íntimo dos personagens. A maquiagem, responsável por uma imersão convincente no universo do Kabuki, destaca-se como um dos pontos altos da produção, reforçando a dimensão ritualística e performática da obra.
Diferente de narrativas que distanciam o público de seus protagonistas, aqui há um esforço claro para tornar Kikuo compreensível, mesmo em suas falhas. Suas decisões equivocadas, seus abandonos e sua obstinação não são romantizados, mas contextualizados. Quando a redenção finalmente chega, o impacto emocional é legítimo, ainda que o melodrama seja assumido. O questionamento que permanece, contudo, é inevitável: o estrelato compensa os sacrifícios acumulados ao longo do caminho?

Cena de Kokuho: O Preço Da Perfeição- Divulgação Sato Company
A estratégia de contextualizar cada apresentação antes de sua encenação contribui para a imersão, aproximando o público da tradição teatral que sustenta o filme. Ainda assim, a extensão de algumas dessas sequências reforça a sensação de que o material poderia ser mais enxuto. A grandiosidade da proposta é inegável, mas o excesso compromete a experiência para parte da audiência, talvez um dos fatores que expliquem sua ausência entre os selecionados ao prêmio de Melhor Filme Internacional.
Ao final, Kokuho: O Preço da Perfeição é uma obra que honra a tradição do Kabuki enquanto reflete sobre ambição, legado e os erros cometidos na busca por reconhecimento. Seu classicismo narrativo é ao mesmo tempo sua força e sua limitação. Assim, resta a dúvida final e derradeira: três horas eram realmente necessárias para contar essa história? Talvez não. Mas é inegável que, mesmo com seus excessos, o filme carrega a coragem de quem escolhe a grandiosidade em vez da conveniência.
Pré indicado japonês ao Oscar 2026 e distribuição da Sato Company e da Imovision, Kokuho: O Preço da Perfeição estreia nos cinemas no dia 05 de Março.
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