O avanço da inteligência artificial e da economia digital está transformando o mapa global da tecnologia — e o Brasil começa a ganhar protagonismo nesse cenário. Com uma matriz energética majoritariamente renovável, o país surge como destino estratégico para a instalação de data centers, estruturas responsáveis por armazenar e processar grandes volumes de dados. No entanto, por trás dessa oportunidade econômica, cresce um alerta entre especialistas: o impacto dessas operações sobre os recursos hídricos.
O debate público costuma se concentrar no alto consumo de energia dessas estruturas, mas pesquisadores apontam que o uso intensivo de água ainda é pouco discutido — e pode ser tão crítico quanto. Em um contexto de mudanças climáticas, estiagens frequentes e pressão sobre sistemas de abastecimento, a expansão dos data centers exige um olhar mais amplo e integrado.
Data centers são a base invisível da vida digital contemporânea. Eles sustentam desde serviços de streaming até plataformas de inteligência artificial, passando por armazenamento em nuvem, redes sociais e sistemas corporativos. Com o crescimento acelerado dessas tecnologias, a demanda por infraestrutura também aumenta.
No Brasil, esse movimento ainda é considerado inicial. O país possui cerca de 200 data centers, a maioria de pequeno e médio porte. As estruturas de grande escala — conhecidas como hyperscale — ainda são limitadas, mas estão no centro das estratégias do governo para atrair investimentos internacionais.
A criação de políticas como o programa Redata, que propõe incentivos fiscais para instalação e ampliação dessas estruturas, sinaliza uma tentativa de posicionar o país como hub digital. Entre as exigências estão o uso de energia limpa e a adoção de métricas de eficiência, incluindo o consumo de água.
Água: o recurso invisível da tecnologia
Apesar do foco na energia, o funcionamento de um data center depende diretamente de sistemas de resfriamento. Isso porque os equipamentos geram calor constante e precisam operar em temperaturas controladas para evitar falhas.
“O recurso hídrico aparece como a principal estratégia de resfriamento para a maioria dessas estruturas”, explica Leopoldo Lusquino, cientista da computação e professor da Unesp. Segundo ele, embora existam alternativas, elas ainda apresentam limitações importantes.

“Isso pode ser útil em países frios, mas em países mais quentes, como o Brasil, isso aumentaria ainda mais o consumo energético”, afirma, ao comentar sobre sistemas de resfriamento a seco.
Ou seja, há um dilema técnico: reduzir o uso de água pode significar aumentar o consumo de energia — e vice-versa.
O impacto hídrico dos data centers já é significativo em escala global. Estimativas indicam que essas estruturas consomem atualmente cerca de 560 bilhões de litros de água por ano. E a tendência é de crescimento acelerado.
Com o avanço da inteligência artificial, esse volume pode mais que dobrar até o fim da década, alcançando 1,2 trilhão de litros anuais.
Estudos também mostram casos específicos que ajudam a dimensionar o problema. Na China, por exemplo, data centers consumiram 15,7 bilhões de litros de água em um único ano — um volume comparável a grandes reservatórios.
Além disso, pesquisas indicam que até mesmo interações digitais aparentemente simples têm impacto hídrico. Estimativas sugerem que sistemas de IA podem consumir quantidades significativas de água dependendo da escala e da localização dos servidores.
Concentração em áreas críticas do Brasil
No território brasileiro, a distribuição dos data centers levanta preocupações adicionais. Mais de 80 dessas estruturas estão concentradas no eixo São Paulo-Campinas, região que já enfrenta forte pressão sobre os recursos hídricos.
Bacias como a do Alto Tietê e do sistema PCJ são exemplos claros desse cenário. Ambas já passaram por períodos de escassez e restrições de consumo nos últimos anos.
Para o hidrólogo Rodrigo Manzione, essa concentração exige análise cuidadosa. “No caso da bacia do PCJ, ela já é naturalmente uma bacia deficitária porque ela transfere água para o sistema Cantareira, que abastece boa parte da população da cidade de São Paulo”, explica.
Além da localização, o perfil de consumo dos data centers agrava o problema. Diferente de outros setores, essas estruturas demandam fornecimento contínuo de água, sem grandes variações ao longo do tempo.
“Como seria possível, numa região de intenso consumo de água, garantir a segurança hídrica para um empreendimento como esse? Somente por meio da exploração de água subterrânea”, afirma Manzione.
A alternativa, no entanto, levanta novas questões. “Nesse contexto, retirar do solo uma água de altíssima qualidade que foi naturalmente filtrada ao longo de 15 mil anos para resfriar um data center não me parece um fim muito nobre para esse recurso”, completa.
Limitações das métricas atuais
Um dos principais instrumentos utilizados para medir o impacto hídrico dos data centers é o chamado WUE (Water Usage Effectiveness), que relaciona o volume de água consumido à energia utilizada.
Embora seja amplamente adotado pela indústria, especialistas alertam que esse indicador não deve ser analisado de forma isolada. Fatores como clima, sazonalidade e variações operacionais podem influenciar os resultados, mascarando o impacto real.
Além disso, há um problema de transparência. Nem todas as empresas divulgam seus dados de consumo de água de forma detalhada, dificultando o acompanhamento por parte da sociedade e de órgãos reguladores.
Esse cenário reforça a necessidade de políticas públicas mais robustas, que considerem não apenas eficiência, mas também contexto territorial e disponibilidade de recursos.
A expansão dos data centers no Brasil é vista como inevitável.
A demanda global por infraestrutura digital continua crescendo, e o país reúne condições favoráveis para atrair investimentos.
Por outro lado, especialistas defendem que esse crescimento precisa ser planejado com cautela. Não basta oferecer energia limpa ou incentivos fiscais — é necessário garantir que os impactos ambientais sejam compreendidos e mitigados.
O desafio está em equilibrar desenvolvimento tecnológico e sustentabilidade. Isso passa por escolhas estratégicas sobre onde instalar essas estruturas, como operá-las e quais limites impor ao seu funcionamento.
Sem esse planejamento, o Brasil corre o risco de transformar uma vantagem competitiva em um problema estrutural, pressionando ainda mais um recurso que já se mostra cada vez mais escasso e valioso.
fonte: Unesp
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