A pintura deixa de ser apenas imagem para se tornar experiência física e sensorial em Língua de Fogo, nova exposição de Pàulla Scàvazzini que ocupa o Centro Cultural Correios com obras inéditas e instalações imersivas. A mostra propõe um encontro direto entre corpo, espaço e cor, deslocando o espectador do papel passivo para uma vivência sensorial intensa.
Com curadoria de Shannon Botelho, a exposição reúne 15 trabalhos — em sua maioria inéditos — e se apresenta como desdobramento de pesquisas recentes da artista.
A proposta central é expandir os limites tradicionais da pintura. Em vez de permanecer restrita à tela, a obra invade paredes, pisos e arquitetura, criando ambientes que exigem a presença física do espectador.
Nesse contexto, a pintura passa a operar como gesto e performance, ativando percepções corporais e emocionais.
Pesquisa de Pàulla Scàvazzini articula corpo, arquitetura e cor
A produção de Pàulla Scàvazzini investiga a relação entre:
- corpo e movimento
- espaço arquitetônico
- cor e luz
- percepção sensorial
Suas obras partem de um imaginário botânico tropical, mas rapidamente se afastam da representação literal. Elementos orgânicos se dissolvem em manchas, campos cromáticos e atmosferas que transitam entre figuração e abstração.
Essa transformação cria paisagens que evocam simultaneamente ruína e regeneração, conectando questões ambientais e sociais contemporâneas.
Um dos aspectos centrais da mostra é a construção de uma experiência sensorial ampliada. Isso se estende inclusive aos títulos das obras, concebidos como micro poesias que evocam sensações além da visão.
Expressões como “vento desértico” ou “fogueira de sal” sugerem cheiro, temperatura e memória, criando uma leitura que ultrapassa o campo visual.
A proposta é que o espectador não apenas observe, mas sinta a obra em múltiplas dimensões.
A própria Pàulla Scàvazzini define sua prática como uma investigação que recusa a ideia de paisagem como conforto:
“As duas exposições partem do imaginário botânico tropical, em que paisagens se desfazem em manchas e campos de cor. Essa dissolução da imagem é também uma recusa em oferecer a paisagem de um mundo em colapso como consolo.”
Ela reforça o papel do corpo na construção da obra:
“O que me interessa é uma pintura que permaneça nessa tensão, e que, por isso mesmo, precisa sair da tela para encontrar o corpo.”
Língua de Fogo é um desdobramento direto da exposição Between Utopias and Abyss, apresentada na Kaliner Gallery, em Nova York.
Na mostra internacional, Scàvazzini desenvolve uma pintura expandida em grande escala, ocupando completamente o espaço expositivo e dialogando com esculturas da artista Austin Fields.
A curadoria de Maryana Kaliner propõe uma reflexão sobre “utopias” como estados instáveis, tensionados entre promessa e colapso.
Experiência internacional amplia escala e linguagem da artista
Durante sua residência na Residency Unlimited, em Nova York, Scàvazzini explora ao máximo a relação entre pintura e espaço:
“Vou experimentar ao máximo a minha pesquisa de escala, estirando a pintura do menor formato a grandes dimensões, pintando uma galeria inteira.”
Ela também descreve o processo criativo como físico e intuitivo:
“Entendo o ato de pintar como uma prática do corpo inteiro — quase uma psicografia pictórica.”
Esse processo resulta em obras que funcionam como fragmentos de um organismo maior, conectando diferentes escalas e perspectivas.
Exposição no Rio aprofunda investigação sensorial e espacial
No Centro Cultural Correios, a artista adapta essa pesquisa ao contexto institucional.
A mostra apresenta:
- maior controle espacial
- novas obras inéditas
- aprofundamento da relação entre gesto e percepção
- exploração de paisagens apocalípticas contemporâneas
O resultado é uma experiência que tensiona o olhar e convida o público a reconsiderar sua relação com o espaço expositivo.
Trajetória de Pàulla Scàvazzini articula independência e circulação internacional
Nascida em São José dos Campos e radicada em São Paulo, Pàulla Scàvazzini constrói uma trajetória independente, com passagens por residências em cidades como Paris, Lisboa e Nova York.
Seu trabalho integra coleções públicas, como o Museu de Arte Brasileira (MAB-FAAP) e o Museu Inimá de Paula, além de coleções privadas no Brasil e no exterior.
A artista também desenvolve uma prática que dialoga com arquitetura, ecologia e colapso contemporâneo, consolidando uma linguagem que une pintura e espaço.
Ao ocupar simultaneamente Nova York e Rio de Janeiro, Scàvazzini amplia o alcance de sua produção e reforça a pintura como linguagem ativa, capaz de reorganizar o espaço e provocar novas formas de percepção.
A mostra aponta para uma arte que não apenas representa o mundo, mas cria experiências que transformam a forma como ele é sentido.
Serviço — Língua de Fogo
- Local: Centro Cultural Correios
- Abertura: 27 de maio, das 16h às 20h
- Visitação: 27 de maio a 4 de julho de 2026
- Horário: terça a sábado, das 12h às 19h
- Entrada: gratuita
Serviço — Between Utopias and Abyss
- Local: Kaliner Gallery
- Visitação: até 30 de maio de 2026
- Horário: quarta a sábado, das 12h às 19h (terça com agendamento)
- Entrada: gratuita
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