- Séries, música e redes sociais criam novos “rituais coletivos”: nova paixão do brasileiro?
- Copa de 2026 encontra torcida menos confiante
- Redes sociais ampliam desgaste da Seleção e da CBF
- Copa segue como maior evento esportivo do país
- Patrocinadores ainda têm espaço de conexão emocional
- Paixão continua sendo parte central da identidade brasileira
O futebol segue ocupando um espaço central na identidade cultural do Brasil, mas a relação emocional dos brasileiros com o esporte — especialmente com a Seleção Brasileira masculina — passa por uma transformação visível. É o que aponta o novo estudo “Mapa das Paixões Brasileiras”, apresentado pela Ipsos durante o evento “Coração em Campo”, realizado nesta quinta-feira (7).
A pesquisa revela um país ainda profundamente conectado ao futebol, mas cada vez mais dividido entre novas formas de entretenimento, hábitos digitais e interesses culturais que fragmentam a atenção do público. Ao mesmo tempo, o levantamento expõe uma torcida mais fria, desconfiada e pragmática em relação à Copa do Mundo de 2026.
Embora futebol, Copa do Mundo e Seleção Brasileira continuem liderando quando agrupados como um único bloco temático — somando 21% das paixões nacionais — o cenário muda quando os interesses são analisados individualmente.
Nesse recorte, séries aparecem como a principal paixão do brasileiro, com 10,9% das citações, seguidas por música (10,7%), religiões (9%) e Copa do Mundo (8,2%). Futebol aparece logo depois, com 7,3%, enquanto a Seleção Brasileira registra 5,8%.
O resultado aponta para uma pulverização inédita das paixões nacionais e mostra como o entretenimento contemporâneo passou a disputar espaço com o esporte mais popular do país.
Séries, música e redes sociais criam novos “rituais coletivos”: nova paixão do brasileiro?
Segundo Paula Soria, líder de marcas e mercado da Ipsos Brasil, o estudo identifica uma mudança importante na forma como os brasileiros constroem pertencimento, lazer e conexão emocional.
“O entusiasmo e o calor humano ainda definem a identidade brasileira, mas o futebol masculino não reina mais sozinho. O brasileiro continua apaixonado, mas suas paixões se pulverizaram”, afirma.
A executiva destaca que séries, música e conteúdos digitais passaram a ocupar um papel semelhante ao que o futebol já exerceu quase sozinho por décadas: o de criar rituais coletivos.

“O consumo de séries e música criou novos espaços de socialização, pertencimento e troca cultural. Hoje, reunir amigos para comentar uma série ou acompanhar um reality também virou um ritual afetivo”, explica.
O estudo mostra que 25% dos brasileiros associam paixão à sensação de pertencimento e acolhimento, enquanto 22% relacionam o sentimento à diversão e à conexão social.
A Copa do Mundo ainda se encaixa nesse imaginário, mas menos pela expectativa esportiva e mais pela experiência coletiva que proporciona.
Copa de 2026 encontra torcida menos confiante
Um dos pontos centrais do levantamento é a mudança no comportamento do torcedor brasileiro em relação à Seleção.
Segundo os dados da Ipsos-Ipec, utilizados no estudo, 46% dos brasileiros afirmam estar desanimados com a Copa do Mundo de 2026. Apenas 18% acreditam plenamente no título brasileiro.
Além disso, 49% dos entrevistados dizem que a Seleção tem poucas chances de conquistar o torneio.
A diferença em relação aos ciclos anteriores é significativa. Em 2022, metade da população acreditava que o Brasil chegava forte à disputa pelo título mundial.

A pesquisa mostra ainda uma mudança simbólica importante: em 2014, o principal sentimento associado à Copa era “alegria”. Agora, em 2026, a palavra mais citada pelos brasileiros é “esperança”.
Para Paula Soria, o comportamento da torcida brasileira abandonou o ufanismo automático que marcou outras gerações.
“O torcedor deixou de viver aquela lógica de ‘já ganhou’. Hoje existe uma relação mais tática, mais racional e muito mais crítica em relação à Seleção”, analisa.
Segundo ela, o futebol continua importante culturalmente, mas o desempenho esportivo já não mobiliza a população da mesma forma.
“A Copa permanece relevante como evento social, quase como um grande ritual coletivo. O jogo importa, mas o encontro entre amigos, o churrasco e a convivência passaram a ocupar um peso enorme nessa experiência”, completa.
Redes sociais ampliam desgaste da Seleção e da CBF
A percepção mais crítica também aparece nas redes sociais. A Ipsos analisou aproximadamente 700 mil publicações feitas entre novembro de 2025 e abril de 2026 para entender como os brasileiros se expressam digitalmente sobre a Copa.
O resultado mostra um ambiente majoritariamente negativo.
Segundo o estudo, 38% das publicações possuem viés negativo, enquanto apenas 16% apresentam tom positivo. O restante foi classificado como neutro.

As conversas nas redes estão concentradas principalmente em jogadores (18%) e seleções rivais (17%), reforçando uma torcida mais preocupada com desempenho, estratégia e ameaça dos adversários do que com clima festivo.
A pesquisa também identificou desgaste significativo da reputação digital de figuras centrais do futebol brasileiro.
Neymar aparece com o menor índice de reputação social entre os principais termos analisados. Em seguida aparecem Carlo Ancelotti, CBF e Seleção Brasileira.
O levantamento aponta que a confiança do torcedor em instituições e ídolos do futebol sofreu uma erosão importante nos últimos anos.
Copa segue como maior evento esportivo do país
Apesar do distanciamento emocional e do pessimismo, a Copa do Mundo continua sendo o evento esportivo mais importante para os brasileiros.
O estudo revela que 62% pretendem assistir à final da Copa de 2026, independentemente da presença do Brasil na decisão.
Os dados também mostram que a experiência de acompanhar o torneio será cada vez mais multiplataforma.
A TV aberta segue dominante, mencionada por 65% dos entrevistados, mas as plataformas digitais já aparecem com força significativa.
Entre os serviços mais citados estão:
- CazéTV (54%)
- Globoplay (42%)
- Amazon Prime Video (36%)
- Instagram (27%)
- GE TV (23%)
O comportamento reforça como o consumo esportivo se tornou simultaneamente televisivo, digital e social.
Patrocinadores ainda têm espaço de conexão emocional
O estudo também analisou a relação entre torcedores e marcas ligadas ao futebol.
Segundo a pesquisa, 46% dos brasileiros conseguem citar espontaneamente patrocinadores da Seleção Brasileira, incluindo Nike, Itaú, Vivo, Ambev, Guaraná, iFood e Google.
Já os patrocinadores oficiais da Copa possuem menor lembrança espontânea: 68% afirmaram não saber quais marcas patrocinam o torneio.

Para a Ipsos, os dados mostram que a conexão emocional com o futebol continua sendo uma oportunidade relevante para marcas, desde que exista identificação cultural genuína com o público.
Paixão continua sendo parte central da identidade brasileira
Mesmo diante das críticas, da fragmentação cultural e do desgaste da Seleção, o estudo conclui que a paixão continua sendo um elemento central da identidade brasileira.
O que mudou foi a forma como ela se manifesta.

O futebol permanece importante, mas agora divide espaço com novos hábitos, plataformas e interesses culturais que ajudam os brasileiros a construir pertencimento, entretenimento e identidade coletiva.
Metodologia
O estudo “Mapa das Paixões Brasileiras” reuniu diferentes metodologias de pesquisa conduzidas pela Ipsos entre abril e maio de 2026.
Entre elas:
- levantamento online com 500 brasileiros das classes A, B e C;
- pesquisa Ipsos-Ipec com 2 mil entrevistados em 130 municípios;
- análise qualitativa;
- monitoramento de redes sociais;
- modelagem estatística comportamental.
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