Dirigido por Damiano Michieletto, Primavera é menos uma cinebiografia sobre Antonio Vivaldi e mais um drama feminista sobre uma jovem em busca de liberdade.
Em pleno 2026, é inevitável estabelecer comparações entre produções cinematográficas. Afinal, a ideia de uma obra completamente original é praticamente inalcançável. Antes mesmo de assistir a Primavera, a primeira referência que me veio à mente foi Amadeus (1984, Miloš Forman). Ambos retratam a vida de compositores geniais do século XVIII, mas seguem caminhos completamente distintos. Enquanto Forman constrói um épico sobre ambição, inveja e genialidade, Damiano Michieletto opta por uma narrativa intimista, em que Antonio Vivaldi atua apenas como mentor, jamais como protagonista.
Primavera começa em um orfanato feminino, onde conhecemos as jovens que vivem sob regras rígidas. Logo na sequência de abertura, uma delas encontra uma gata amamentando seus filhotes recém-nascidos. Aos poucos, todas se aproximam e se encantam com a cena, despertando na plateia o mesmo sentimento de ternura. O momento, porém, é brutalmente interrompido quando uma das responsáveis pelo orfanato recolhe os filhotes, coloca-os em um saco e os afoga, causando choque tanto nas personagens quanto no espectador.
Naquele instante, imaginei que Primavera seria um verdadeiro soco no estômago. Se a primeira cena apresentava tamanha força dramática, o restante do filme prometia ser devastador. Infelizmente, essa expectativa não se concretiza.
Primavera segue um caminho bastante convencional ao acompanhar Cecília, uma órfã talentosa no violino que escreve cartas para a mãe que jamais conheceu, alimentando a esperança de encontrá-la algum dia. É por meio dessas cartas, lidas em narração em off, que conhecemos a rotina do orfanato, seus funcionários e uma instituição onde o dinheiro frequentemente fala mais alto do que a humanidade.

Tecla Insolio e Michele Riondino em cena de “Primavera”- Divulgação Imagem Filmes
Dom Antonio Vivaldi surge apenas próximo ao fim do primeiro ato como professor e mentor das garotas, sobretudo de Cecília. Sua primeira aparição é marcante: chega de balsa tossindo intensamente e com aparência debilitada. No entanto, poucos minutos depois, sua fragilidade praticamente desaparece sem qualquer desenvolvimento narrativo. A partir daí, Vivaldi assume uma posição essencialmente passiva, funcionando apenas como guia da protagonista e incentivando-a a perseguir seus sonhos.
Essa escolha fica ainda mais evidente no desfecho. O filme encerra com um letreiro informando que Vivaldi permaneceu por mais de quarenta anos no orfanato, onde compôs As Quatro Estações e morreu na pobreza. Diferentemente de Amadeus ou até mesmo de Minha Amada Imortal (1994, Bernard Rose), aqui o compositor serve apenas como peça de apoio para outra história. Não há problema em subverter expectativas, mas o filme parece vender uma narrativa sobre Vivaldi enquanto, na prática, pouco se interessa por ele.
Cecília, por outro lado, funciona como protagonista. Acompanhar sua transformação, de uma jovem introspectiva, quase silenciosa, para alguém capaz de encontrar a própria voz e lutar por sua liberdade, é envolvente. Ainda assim, sua evolução nem sempre convence plenamente. O roteiro se alonga em diálogos excessivamente expositivos e em cenas que poderiam ser condensadas, comprometendo o ritmo e fazendo com que parte de seu amadurecimento pareça acontecer entre uma sequência e outra, sem que o espectador acompanhe efetivamente esse processo.

Michele Riondino em cena de “Primavera”- Divulgação Imagem Filmes
A relação entre Vivaldi e Cecília é o eixo central da narrativa, mas o verdadeiro tema do filme está na emancipação feminina. O orfanato funciona como uma prisão que remete diretamente a O Conto da Aia, seja pelo controle exercido sobre os corpos das mulheres, pelas roupas padronizadas ou pela constante repressão de seus desejos. Quando Cecília finalmente encontra sua liberdade, soltando os cabelos e assumindo o controle da própria vida, o simbolismo é evidente, talvez até mais do que o necessário.
Tecnicamente, Primavera entrega uma produção bastante competente. A trilha sonora, naturalmente, é um dos grandes destaques, impulsionada pelas composições de Vivaldi, enquanto a direção de arte e a reconstituição de época ajudam a construir uma atmosfera elegante e convincente. O problema está justamente na evolução dos personagens. Cecília amadurece de forma irregular, enquanto Vivaldi simplesmente abandona sua condição frágil sem qualquer explicação, recuperando a saúde e a disposição de maneira quase instantânea.
Curiosamente, a personagem Priora apresenta um arco dramático muito mais consistente. Sua transformação, de uma figura rígida e inflexível para alguém capaz de compreender e libertar Cecília, é construída com muito mais clareza do que a da própria protagonista, e certamente, muito mais do que a de Vivaldi.
No fim das contas, Primavera se beneficia de uma proposta interessante, mas parece indeciso sobre qual história deseja contar. Não é um filme sobre um dos maiores compositores da história da música, e sim sobre uma jovem que encontra, por meio da arte, a força necessária para conquistar sua liberdade. É uma abordagem válida, mas que acaba enfraquecida por um ritmo irregular, por personagens cujo desenvolvimento acontece mais fora de cena do que diante da câmera e pela subutilização de uma figura histórica tão fascinante quanto Antonio Vivaldi.
Distribuído pela Imagem Filmes, Primavera estreia nos cinemas brasileiros em 9 de julho.
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