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Hugo Haddad em Pré Estreia de "Brasil 70: A Saga do Tri"- Reprodução
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Entrevista exclusiva com Hugo Haddad sobre ‘Brasil 70: A Saga do Tri’, Werner Herzog e os bastidores da série: “Maior de todos os tempos”

Por André Quental Sanchez
Última Atualização 22 de junho de 2026
14 Min Leitura
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Hugo Haddad em Pré Estreia de "Brasil 70: A Saga do Tri"- Reprodução
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Com um sucesso no streaming, Hugo Haddad conta dos bastidores e reflexões não somente sobre a série, mas também sobre o goleiro Félix e o Fantasma do Maracanaço dos dias atuais.

Já disponível na NETFLIX, Brasil 70: A Saga do Tri conta do tricampeonato mundial ganho pela Seleção Brasileira na Copa de 1970. Muito além do que um simples retrato histórico, a produção é um grande estudo de personagem, ao analisar não somente Pelé e João Saldanha, mas todo um leque de personagens únicos.

Entre eles está Félix, goleiro titular da equipe campeã. Interpretado por Hugo Haddad, o personagem ganha destaque por seu arco de humanidade e um olhar empático e reflexivo para a equipe como um todo.

Em entrevista exclusiva com o Vivente Andante, Hugo Haddad comentou os bastidores da série, enfatizou como Werner Herzog mudou sua visão sobre o cinema, e dá sua opinião sobre quem é o Fantasma do Maracanaço dos dias atuais.

André Sanchez: Eu nunca fui muito ligado em futebol, mas sempre gostei de Copa do Mundo. Esse clima, essa alegria coletiva, todo mundo torcendo junto. Assistindo à série, eu me emocionei mais do que em muitos jogos recentes da Seleção. Como foi receber a oportunidade de participar de um momento tão histórico para o Brasil? O que você sentiu?

Hugo Haddad: Tenho percebido que muita gente tem se emocionado assistindo à série, independentemente de gostar de futebol ou não. Talvez porque o futebol seja algo tão importante para o Brasil. A cada quatro anos, parece que as pessoas voltam a se unir em torno de um propósito comum.

O casting chegou ao meu grupo de teatro e lembro de um amigo que havia feito o teste comentando: “Cara, seria um sonho participar desse projeto. Estamos falando da maior seleção de todos os tempos.”

Quando surgiu a oportunidade de fazer o teste, eu já me sentia muito honrado. Estar na O2, em contato com os diretores, era algo especial. A cada etapa, eu entendia melhor a dimensão do projeto e percebia que ele faria jus ao impacto que aquela seleção teve na cultura brasileira.

O Brasil se tornou o país do futebol muito por causa daquela equipe. Até então, nenhuma seleção havia conquistado três Copas do Mundo. Na minha opinião, aquela conquista mudou a história do país.

Interpretar o Félix foi um orgulho enorme. É um personagem complexo, cheio de características marcantes.

Cena de "Brasil 70: A Saga do Tri"- Divulgação NETFLIX

Cena de “Brasil 70: A Saga do Tri”- Divulgação NETFLIX

André Sanchez: O vínculo dele com a filha é um dos pontos mais emocionantes da série. Aquela cena em que ela liga perguntando o que significa “frangueiro” é inesquecível.

Hugo Haddad: E o mais impressionante é que essa história aconteceu de verdade. Tanto o Félix quanto a filha deram entrevistas contando sobre essa ligação. Fiquei imaginando o que significa, para um pai, ouvir aquela pergunta da filha. Ao mesmo tempo, existe algo tragicômico na situação. Ela pergunta o que é “frangueiro”, e ele responde que era porque vendia frango na feira.

O Félix era muito criticado, mas também era um goleiro extraordinário. Dentro da própria seleção, era um dos jogadores mais vencedores nos confrontos diretos. Ganhou tudo.

André Sanchez: E a questão da luva na final? Aquilo realmente aconteceu?

Hugo Haddad: Sim, aconteceu. As imagens históricas comprovam que ele só usou luvas na final. E existem relatos de jogadores da época que perguntavam: “Pô, Félix, você passou a Copa inteira sem luvas, fez defesas incríveis, e vai usar justo na final?”

Ele era um cara muito seguro. Os jogadores confiavam nele, e isso era o mais importante. A família confiava nele, os treinadores confiavam nele. Mesmo quando a imprensa e parte da torcida duvidavam, ele tinha o respaldo das pessoas que realmente importavam.

André Sanchez: Infelizmente ele já faleceu, mas você chegou a conversar com a família dele?

Hugo Haddad: Conversei com a Lígia, que é representada na série. Ela me deu todo o suporte durante o projeto.

Contou histórias, falou sobre quem era o pai dela longe dos gramados, sem as câmeras. Também me enviou algumas fotos que me ajudaram a criar códigos para a construção do personagem. Esses detalhes ajudam muito a manter uma interpretação coerente do início ao fim.

Depois que a série estreou, nos tornamos grandes amigos. Ela sempre me manda mensagens e torce por mim. Fiquei muito feliz com a repercussão da série dentro da família. Os netos comentaram que conheceram o avô através da produção. E eu fico imaginando isso: quando eles tiverem filhos, poderão mostrar a série aos bisnetos. É uma história que seguirá sendo passada de geração em geração.

Hugo Haddad, Lucas Agrícola e elenco em cena de "Brasil 70: A Saga Tri"- Divulgação NETFLIX

Hugo Haddad, Lucas Agrícola e elenco em cena de “Brasil 70: A Saga Tri”- Divulgação NETFLIX

André Sanchez: Você também tem uma carreira sólida em documentários e chegou a passar um mês com Werner Herzog. Como grande fã, preciso perguntar: como foi essa experiência?

Hugo Haddad: Herzog transformou profundamente a minha vida, não apenas a minha carreira. Depois de trabalhar com ele, percebi a paixão genuína que tem pelo cinema e como isso alimenta a própria vida. Ele tinha mais energia do que eu.

Esse encontro mudou minha forma de enxergar o cinema. Passei a entender que cinema não é apenas uma indústria ou uma carreira. É também uma forma de expressão pessoal. Depois disso, comecei a refletir muito mais sobre por que estou fazendo determinado filme e o que desejo comunicar com ele.

André Sanchez: E esse contato com os bastidores ajudou você a entrar em uma produção tão grande como Brasil 70?

Hugo Haddad: Eu já tinha participado de grandes produções, mas quase sempre atrás das câmeras. Quando cheguei a esse projeto, percebi uma troca muito rica. Havia coisas que eu aprendia com a equipe e outras em que minha experiência facilitava a comunicação. Eu estava ali como ator, mas entendia melhor os processos ao meu redor.

Isso me ensinou muito sobre atuação e certamente vai influenciar meus próximos projetos. Pretendo dirigir meu primeiro longa de ficção em 2027, e tenho certeza de que a forma como vou lidar com os atores será impactada por tudo o que aprendi nessa produção.

Também trabalhei com profissionais extremamente experientes, como Rodrigo Santoro, Ravel Andrade e Gui Ferraz. Não havia estrelismo. Era uma troca constante, com personagens muito diferentes e perspectivas distintas.

Aprendi também sobre lançamento e divulgação. A NETFLIX faz isso de maneira exemplar. Fomos tratados com enorme cuidado. A O2 foi sensacional, os diretores extremamente acessíveis. O clima era de colaboração. Parecia que todos estavam construindo algo juntos.

Lucas Agrícola em cena de "Brasil 70: A Saga do Tri"- Divulgação NETFLIX

Lucas Agrícola em cena de “Brasil 70: A Saga do Tri”- Divulgação NETFLIX

André Sanchez: Vocês gravaram tanto em São Paulo quanto no México. Percebeu muitas diferenças entre as produções?

Hugo Haddad: A viagem acabou funcionando quase como um encerramento simbólico do projeto. Tivemos a oportunidade de ficar no mesmo hotel em que os jogadores estiveram hospedados em Guadalajara durante a Copa de 1970.

O sistema mexicano é mais influenciado pelo modelo norte-americano. Mas também percebi que o Brasil está em um nível muito alto de produção. Temos uma forma própria de fazer cinema, baseada em criatividade, coletividade e capacidade de adaptação. Foi mais um aprendizado que vou levar comigo.

André Sanchez: E a preparação física? Vi que vocês tiveram até acompanhamento nutricional.

Hugo Haddad: Tivemos uma equipe de nutrição e passamos meses nos preparando. Não era apenas uma questão física. Os jogadores daquela época tinham características muito diferentes dos atletas atuais. Não era uma geração moldada pela academia.

No caso do Félix, por exemplo, ele tinha uma postura mais inclinada para a frente. Eu comecei a incorporar esses detalhes antes dos testes. Foi um processo intenso, mas todos adoraram. A rotina era puxada, como a de um jogador profissional, mas isso também ajudou a criar uma dinâmica muito forte entre nós.

André Sanchez: Para finalizar: qual você acha que é o fantasma do Maracanaço da seleção atual?

Hugo Haddad: Eu diria que são as redes sociais. Hoje, elas exercem uma pressão enorme sobre os jogadores. Deve ser muito difícil abrir o celular e encontrar diariamente comentários dizendo que ninguém acredita na vitória da equipe. Ao mesmo tempo, para quem acompanha, também pode ser frustrante quando parece que alguns atletas estão mais preocupados com publicidade ou com a própria imagem do que com o futebol.

Se eu tivesse que apontar um fantasma moderno, seriam as redes sociais. Mas se tiverem dois, a Bet entra no meio aí também.

Hugo Haddad em Pré Estreia de "Brasil 70: A Saga do Tri"- Reprodução

Hugo Haddad em Pré Estreia de “Brasil 70: A Saga do Tri”- Reprodução

André Sanchez: Ao mesmo tempo, as redes também criam momentos divertidos. Eu, por exemplo, acho que o que mais estou curtindo nesta Copa são os memes.

Hugo Haddad: As redes sociais também têm um lado positivo. Elas permitem acompanhar a Copa de uma maneira completamente diferente. Você conhece atletas do outro lado do mundo, sabe quem são, acompanha suas histórias e cria uma conexão.

Não acho que as redes sejam uma vilã. Mas imagino que, para os jogadores, especialmente em momentos de desconfiança da torcida, a pressão seja enorme. Hoje conseguimos viver o torneio por dentro. Isso também tem um valor muito grande.

André Sanchez: Quando vocês estavam gravando, já sabiam que o lançamento seria tão próximo da Copa do Mundo?

Hugo Haddad: A ideia sempre foi coincidir. A equipe de pós-produção fez um trabalho extraordinário para entregar tudo no prazo. Isso nos animava muito.

Chegamos a ver jogadores de Cabo Verde assistindo aos episódios durante uma viagem de avião. Então pensamos: quem sabe a Seleção Brasileira também não assiste? Mais do que revisitar o Maracanaço, a série fala sobre superação. A história daqueles jogadores pode servir de inspiração.

Eles jogavam por amor ao futebol e ao Brasil. Acreditávamos que essa energia poderia dialogar com as novas gerações. A gente brincava imaginando: “Será que o Messi vai assistir? Será que o Cristiano Ronaldo vai assistir?”

No fim das contas, é muito especial fazer parte de uma produção brasileira sobre a melhor seleção da história e saber que ela pode inspirar os jogadores de hoje e os do futuro.

André Sanchez: Hugo, muito obrigado. Foi um prazer. Acho que ficaríamos aqui por horas conversando, porque a série rende assunto. Está excelente, e você está de parabéns.

Hugo Haddad: Muito obrigado, André. O prazer foi meu. Estou honrado de estar aqui.

Obs: A entrevista com Hugo Haddad foi editada para maior concisão e/ou clareza.

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André Quental Sanchez é formado em cinema e audiovisual, apresenta especialização em roteiro audiovisual, é crítico, redator e amante da sétima arte como um todo.

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