Assistir a Querer ficar, mas ter que partir foi, para mim, uma experiência de reconhecimento. Sou uma mulher negra e já morei em lugares diferentes do Rio de Janeiro e da Baixada Fluminense, como Nova Iguaçu, Magalhães Bastos e Bangu. Por isso, mesmo a peça tendo o Jacarezinho como território central, muitas das situações que aparecem no palco me pareceram muito próximas.
É aquele tipo de identificação que acontece sem a gente perceber. Uma fala, uma situação familiar, uma maneira de lidar com os problemas, uma lembrança ou até uma piada fazem a gente pensar: “Eu já vivi isso” ou “conheço alguém assim”.
Querer ficar, mas ter que partir, da Cia Cria do Beco, fala sobre migração, trabalho, família, pertencimento e as transformações pelas quais passam os territórios periféricos. Mas não faz isso de uma maneira pesada, pelo contrário, há muito espaço para o humor, e isso deixa a experiência muito mais próxima da vida real.
Porque a vida na periferia também tem graça. A gente ri no meio do problema, brinca com as dificuldades, cria histórias e encontra maneiras de continuar. A peça entende isso.
O espetáculo parte da história do Jacarezinho e da trajetória da família de Natália Brambila, cuja mãe saiu de Minas Gerais ainda adolescente para tentar a vida no Rio de Janeiro. Ela chegou em busca de trabalho e encontrou no Jacarezinho não apenas um emprego, mas também relações e um lugar para construir sua história.
Essa trajetória me fez pensar muito sobre quantas famílias negras e periféricas foram construídas dessa maneira. Pessoas que saíram de suas cidades ou estados porque precisavam trabalhar, que chegaram ao Rio procurando oportunidades e que acabaram criando raízes em lugares que, muitas vezes, nem imaginavam chamar de casa.
Eu mesma passei por diferentes lugares. Morar em Nova Iguaçu, Magalhães Bastos e Bangu me fez conhecer realidades diferentes, mas também perceber que existem experiências que atravessam esses territórios.
Por isso, não precisei ser moradora do Jacarezinho para entender o que estava sendo contado. Querer ficar, mas ter que partir fala de um território específico, mas consegue falar de muitos outros.
Também achei interessante a maneira como o espetáculo apresenta a favela. Não é aquele olhar de quem chega de fora apenas para mostrar violência, pobreza ou carência. Existem problemas, evidentemente, mas existe muito mais do que isso.
Existe cultura. Existe criatividade. Existe memória. Existe família. Existe música. Existe comunidade. Existe gente inventando caminhos quando os caminhos que existiam deixam de funcionar.
A história do Jacarezinho ligada ao antigo Complexo Industrial do Jacaré ajuda a entender isso. O trabalho atraiu pessoas de diferentes lugares e ajudou a formar uma comunidade. Depois, com o fechamento das fábricas e as mudanças econômicas, o território passou, e ainda passa, por outras dificuldades.
Mas as pessoas continuaram ali, criando. E a cultura aparece justamente como uma dessas formas de resistência e reinvenção.

A música, as referências a artistas que surgiram no Jacarezinho, como Lacraia e MC Serginho, ajudam a mostrar que aquele território não é apenas cenário. Ele produz cultura e tem personagens, histórias e memórias próprias.
Como mulher negra, também foi importante assistir a uma peça em que pessoas negras não aparecem apenas como personagens secundários de uma história maior. Elas são o centro da narrativa, com suas famílias, conflitos, desejos, contradições e sonhos.
E isso não significa que a peça fique tentando ensinar alguma coisa o tempo inteiro. Ela simplesmente conta sua história de uma maneira divertida.
Em alguns momentos, eu me peguei rindo justamente porque reconhecia determinadas situações. É um humor que nasce da familiaridade. Não precisa explicar muito. Quem já viveu determinadas experiências entende.
No final, fiquei pensando no próprio título: “Querer ficar, mas ter que partir”.
Quantas vezes a vida coloca a gente diante dessa escolha que, na verdade, nem é uma escolha? Quantas pessoas deixam sua cidade, seu bairro ou sua casa porque precisam trabalhar, estudar, procurar uma oportunidade ou simplesmente sobreviver?
E quantas dessas pessoas passam a carregar vários lugares dentro de si?
Para mim, essa é a força do espetáculo. Ele conta a história do Jacarezinho, mas permite que outras pessoas encontrem suas próprias histórias dentro dela.
Eu saí da peça pensando nos lugares onde já morei, nas pessoas que conheci e em quantas histórias parecidas existem espalhadas pelo Rio de Janeiro.
Essa á uma das graças de um bom teatro, contar a história de um lugar específico e, ainda assim, fazer a gente enxergar um pouco da nossa própria vida no palco.
“Querer ficar, mas ter que partir” é uma peça sobre o Jacarezinho, mas também é sobre todos nós que, em algum momento, tivemos que partir, permanecer ou começar de novo.
Serviço – Querer ficar, mas ter que partir
Teatro II – Sesc Tijuca
Estreia: 17 de setembro – temporada até dia 11 de outubro
Horários das sessões: quinta a sábado às 19h – domingos às 18h.
Ingressos: GRÁTIS (PCG), R$21 (habilitado Sesc), R$15 (meia-entrada), R$27 (conveniado), R$30 (inteira)
Endereço: Rua Barão de Mesquita, 539, Rio de Janeiro – RJ
OBS: o espetáculo fará mais 4 apresentações no mês de novembro nas comunidades de Manguinhos e Jacarezinho
Duração: 80 minutos
Classificação: 12 anos
Vendas online através do site da Ingresso.com
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