Quando mulheres ocupam espaços de poder, a violência contra elas pode assumir diferentes formas. Ela aparece em ataques, tentativas de silenciamento, apagamentos e, em seus casos mais extremos, na própria eliminação de quem decidiu ocupar a linha de frente da vida pública.
É a partir desse cenário que o livro Feminicídio Político reúne pesquisadoras de diferentes áreas para discutir um conceito desenvolvido pela deputada estadual e pesquisadora Renata Souza a partir do assassinato de Marielle Franco. A obra foi lançada na quarta-feira (23), no Bar da Fatinha, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro.
Organizado por Renata Souza, Lilian Angélica Souza e Isabela Amaral, o livro é publicado pela Dandara Editora e reúne 27 autoras em 294 páginas. A publicação cruza diferentes campos do conhecimento para discutir violência política contra mulheres e as relações entre gênero, raça, poder e território.

Mulheres ainda são minoria nos espaços de poder
Durante o lançamento, Renata Souza chamou atenção para o contraste entre a presença das mulheres na sociedade brasileira e sua participação nos espaços de decisão. Segundo ela, embora as mulheres representem 52% da população, sua presença nos espaços de poder no Brasil não chega a 20%.
A pesquisadora também comparou o cenário brasileiro com outros países da América Latina e do Caribe, onde, segundo os números apresentados por ela durante o evento, a participação feminina chega a cerca de 30%.
Mais do que apresentar números, Renata relacionou essa sub-representação à própria discussão proposta pelo livro: entender por que mulheres que chegam à linha de frente da política encontram diferentes formas de violência e resistência.
O conceito de feminicídio político foi formulado por Renata em sua pesquisa de pós-doutorado e apresentado academicamente em 2020, em estudo que tomou o assassinato de Marielle Franco como ponto de partida para discutir a violência contra mulheres na política.
Durante o lançamento, ela reforçou que a ideia não foi criada para estabelecer uma nova tipificação penal, mas para nomear e investigar um fenômeno.
“Esse é um livro que não fala de morte, ele fala de vida, da vida dessas mulheres que construíram a possibilidade de outras mulheres também chegarem na linha de frente da luta política.”
Da morte à memória e à luta
A proposta da obra, segundo Renata Souza, também passa por recuperar as trajetórias das mulheres que estiveram na construção de diferentes lutas sociais e políticas. O conceito, portanto, não se restringe ao assassinato de mulheres que ocupam cargos eletivos.
A própria apresentação descreve o feminicídio político como um fenômeno que também pode envolver o apagamento simbólico, a destruição da memória e a invisibilização de mulheres dentro das instituições.
A publicação parte do caso de Marielle, mas amplia o debate para diferentes experiências e áreas de atuação. Entre as autoras estão pesquisadoras ligadas ao Direito, Serviço Social, Comunicação, História e outros campos acadêmicos.
Para Renata, levar essa discussão para a academia também faz parte da disputa por espaço e reconhecimento intelectual.
A organizadora destaca ainda que a seleção dos textos passou por uma banca formada por pesquisadores de diferentes áreas, sem identificação das autoras durante a avaliação.
Política também acontece fora dos partidos
Entre as autoras do livro está Brisa Lima da Silva, que participou do lançamento em Santa Teresa. Em sua fala, ela ressaltou que pensar a presença das mulheres na política exige ampliar o próprio entendimento sobre o que significa fazer política.
“Quando a gente está falando sobre mulheres que fazem política, a gente não está falando só da política partidária.”
Brisa citou a trajetória da liderança indígena hondurenha Berta Cáceres e estabeleceu relações com o caso de Marielle Franco. Para ela, experiências como essas também mostram a importância de observar a luta por justiça protagonizada por mulheres.
“A luta por justiça também é protagonizada por mulheres.”
A autora também chamou atenção para os diferentes territórios envolvidos nessas disputas. Em sua análise, a violência política não pode ser separada dos espaços sociais e das comunidades onde essas mulheres atuam.
Território também faz parte da discussão
A relação entre política e território aparece como um dos eixos que atravessam as falas das autoras durante o lançamento.
Ao abordar o conceito de feminicídio político, Brisa destacou que as disputas envolvendo mulheres que estão na linha de frente da política também podem envolver territórios indígenas, direitos à moradia e outras formas de ocupação e pertencimento.
“Quando a gente fala sobre feminicídio político, eles são diretamente ligados.”
A reflexão se conecta à proposta apresentada pela própria publicação, que relaciona violência política a uma estrutura histórica marcada por gênero, raça e território.
“Então a gente vê que a disputa é sobre território na América Latina.”
Com Feminicídio Político, o debate iniciado a partir da trajetória de Marielle Franco ganha uma dimensão coletiva e acadêmica. A publicação reúne diferentes pesquisas para discutir não apenas a violência contra mulheres que chegam aos espaços de poder, mas também as disputas por memória, representação e participação política que atravessam essas trajetórias.
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