Dirigido por Céline Carridroit e Aline Suter, Deriva de Verão se limita a explorar suas próprias metáforas sem desenvolver plenamente as possibilidades de sua narrativa.
Uma tendência recorrente entre alguns filmes da 50ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo é a abordagem docuficcional. Seja pelo viés cômico de The History of Concrete (2026, John Wilson), ou pela perspectiva dramática de Deriva de Verão, a combinação entre realidade e ficção abre espaço para experiências cinematográficas que transitam entre a observação cotidiana e a construção simbólica.
Exibido na ACID Cannes, seção paralela do Festival de Cannes dedicada à valorização do cinema autoral e independente, o longa acompanha Johanna, uma mulher trans que trabalha em uma fábrica de relógios e embarca em uma missão: consertar seu Fusca para participar de uma corrida.
As conexões entre a protagonista e o automóvel são evidentes. Assim como o veículo, Johanna parece carregar as marcas do desgaste e da rejeição, enquanto tenta reconstruir a própria trajetória. Seu trabalho com relógios exige o mesmo cuidado e a mesma minúcia que dedica à recuperação do carro, praticamente remontado do zero.
As possibilidades interpretativas são diversas: uma crítica ao capitalismo tardio e ao descarte daquilo que perdeu sua utilidade; o retrato de uma mulher trans em busca de seu lugar no mundo, que se recusa a ser deixada para trás; ou ainda uma reflexão sobre as relações que sustentam sua existência. O problema não está na escolha desses simbolismos, mas na insistência em explorá-los sem lhes acrescentar novas camadas.

Johanna Schopfer em cena de “Deriva de Verão”- Divulgação Mostra Sp
Ao longo dos 90 minutos, conhecemos muito pouco de Johanna, apesar de acompanhá-la praticamente durante toda a projeção. Sabemos que ela já foi quadrinista, que trabalha com relógios e que mantém uma relação com uma noiva distante. Entretanto, as pessoas ao seu redor permanecem pouco desenvolvidas, e o universo da protagonista nunca ganha consistência suficiente para ultrapassar sua função metafórica.
Ao concentrar quase toda a atenção em sua personagem central, a produção negligencia a construção do ambiente social e afetivo que poderia dar maior profundidade à sua trajetória. Tudo é contemplativo, lento e visualmente poético, mas essa atmosfera não se traduz em envolvimento dramático.
As sequências em quadrinhos estão entre os momentos mais interessantes do filme. Por meio delas, o preconceito sofrido por Johanna ganha uma representação mais direta e contundente, dispensando a necessidade de recorrer continuamente às mesmas associações visuais. É justamente quando Deriva de Verão abandona, ainda que momentaneamente, a contemplação do Fusca que encontra novas maneiras de abordar a experiência da protagonista.
A metáfora do automóvel, afinal, não é particularmente difícil de decifrar. A relação entre a máquina deteriorada e uma mulher que tenta reconstruir a própria vida fica clara muito antes da metade da projeção. Reiterar essa associação ao longo de todo o filme, sem expandi-la ou colocá-la em perspectiva, transforma uma ideia inicialmente promissora em um recurso desgastado. O que poderia funcionar como ponto de partida para uma investigação mais complexa acaba se tornando o principal limite da obra.

Johanna Schopfer em cena de “Deriva de Verão”- Divulgação Mostra Sp
O que resta de nós quando nos recusamos a caber em um sistema que determina o que é considerado normal? Deriva de Verão tem potencial para explorar essa questão, sobretudo ao acompanhar uma mulher trans que busca escapar das expectativas impostas pelo trabalho e pela sociedade. Entretanto, a direção parece mais interessada em preservar a dimensão contemplativa do projeto do que em aprofundar os conflitos que poderiam sustentar essa reflexão. O pôr do sol, a luz violeta do céu e os mergulhos no lago compõem imagens de evidente apelo estético, mas a beleza dessas paisagens não substitui o desenvolvimento dramático que falta à narrativa.
Quando se afasta da rotina de Johanna para explorar outras possibilidades, como as sequências em quadrinhos ou a referência a Mad Max (1979, George Miller), Deriva de Verão demonstra que poderia encontrar caminhos mais instigantes. Ainda assim, essas passagens permanecem subordinadas ao mesmo conjunto de metáforas. A trajetória da protagonista é reduzida à imagem de alguém descartado por uma sociedade que valoriza a produtividade e a adequação, enquanto o conserto do Fusca se torna a representação literal de sua tentativa de reconstrução. A mensagem é compreensível, mas sua repetição impede que ela adquira a complexidade que o tema exige.
No fim, fica a pergunta: além de suas intenções artísticas e de suas imagens cuidadosamente construídas, o que Deriva de Verão realmente tem a oferecer? A produção apresenta uma protagonista cuja história poderia render reflexões relevantes sobre identidade, exclusão e pertencimento, mas se contenta em orbitar uma única ideia durante praticamente toda a projeção. Ao confundir contemplação com aprofundamento, o filme transforma sua proposta autoral em um exercício exaustivo, no qual o simbolismo ocupa o espaço que deveria ser dedicado à descoberta de novas perspectivas.
Participante da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Deriva de Verão terá sessões nos dias 21, 23 e 24 de outubro de 2026.
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