Dirigido por Rob Savage, Outra Mamãe pode não ser tão eficiente em seus sustos, mas entrega uma atmosfera memorável e um entretenimento que não justifica as duras críticas que vem recebendo.
Em poucas palavras: não, Outra Mamãe não é um Coraline da Shopee, mas a comparação é válida.
Eu tinha nove anos quando assisti a Coraline e o Mundo Secreto (2009, Henry Selick), pela primeira vez. Foram necessários dez anos para superar o medo inconsciente que a animação me provocava e reconhecer que a produção era um feito não apenas para o campo da animação, mas também para o cinema infantojuvenil. Afinal, não era tão comum encontrar obras voltadas a esse público que apresentassem tamanha maturidade temática e estética, características que ajudaram a transformar o longa em um clássico, sem contar uma união tão forte entre inocência e terror por meio de uma figura que deveria representar consolo: a mãe.
Basta entrar no Letterboxd de Outra Mamãe para encontrar inúmeros comentários comparando a produção de Rob Savage ao filme de Selick. As semelhanças são evidentes: ambas apresentam protagonistas femininas com pais distantes, que buscam consolo em uma figura misteriosa que assume o papel de mãe acolhedora. Inicialmente reconfortante, essa presença logo revela uma natureza ameaçadora, a ponto de colocar a protagonista e toda a sua família em perigo sob uma espécie de amor possessivo e sufocante.
É curioso pensar que, sem a existência do filme da Laika, Outra Mamãe talvez tivesse sido recebido de maneira mais favorável pela crítica e pelo público. Com apenas 16% de aprovação no Rotten Tomatoes e nota D+ no CinemaScore, o longa chega a ser tratado como um dos piores filmes do ano. No entanto, apesar de seus problemas, há qualidades que merecem ser reconhecidas.

Jessica Chastain em cena de “Outra Mamãe”- Divulgação Universal Pictures
Em primeiro lugar, destaca-se a atuação de Jessica Chastain, que interpreta duas versões de uma mesma figura materna: de um lado, uma mãe emocionalmente distante que começa a voltar sua atenção para a família; de outro, uma entidade misteriosa e assustadora, apresentada logo na primeira cena.
A escolha de não restringir a percepção do monstro à protagonista infantil diferencia Outra Mamãe de Coraline e de outras histórias sobre o bicho-papão. Aqui, os adultos também enxergam a ameaça, o que abre espaço para situações que escapam da descrença habitual dos personagens diante de acontecimentos sobrenaturais. Essa decisão narrativa oferece ao filme uma liberdade interessante, ainda que nem sempre explorada em todo o seu potencial.
Com pouco mais de 90 minutos, Outra Mamãe não demora a estabelecer sua atmosfera de horror. Entretanto, a declaração de Rob Savage de que a produção conta com 50 jump scares acaba reforçando parte da recepção negativa. Afinal, poucos deles são realmente eficientes. Por mais perturbador que seja observar Chastain se contorcendo e compondo expressões grotescas, os sustos raramente atingem o impacto esperado. O desconforto, por outro lado, funciona melhor: há algo de genuinamente inquietante na maneira como a atriz abraça o exagero e transforma o ridículo em uma ferramenta de horror.
O roteiro pode ser simples, mas seus subtextos oferecem bastante material para reflexão. Baseado no livro Incidents Around the House (2024, Josh Malerman), o filme explora a fronteira entre a inocência infantil e o terror. A decisão de não explicar completamente a natureza da criatura é um de seus maiores acertos. A partir de uma leitura psicológica, é possível interpretar a entidade como uma manifestação dos sentimentos de Bela, que, aos sete anos, já percebe que algo está profundamente errado na relação entre seus pais. Diante da ausência emocional dos adultos, a menina encontra nessa figura uma forma distorcida de acolhimento, ainda que o consolo rapidamente se transforme em ameaça.

Jessica Chastain e Arabella Olivia Clark em cena de “Outra Mamãe”- Divulgação Universal Pictures
A jovem Arabella Olivia Clark também merece destaque. Presente em praticamente todas as cenas, a atriz sustenta o filme com uma atuação segura, transitando entre o drama e o horror sem perder a força. Seja nas conversas com a avó, seja nos confrontos com a entidade em cenários tão distintos quanto o mar, uma piscina de bolinhas ou um túnel de brinquedão vermelho, Clark demonstra domínio sobre as diferentes exigências da personagem.
Apesar da execução ágil, o longa também se perde ao prolongar determinadas situações, como a visita à Vovó Ruth. Sua estrutura segue caminhos tradicionais demais para um terror cuja divulgação promete uma experiência mais intensa. Esse descompasso entre expectativa e resultado é um dos principais problemas da produção. Ainda assim, o exagero dos personagens e os efeitos visuais deliberadamente artificiais e plásticos da Outra Mamãe contribuem para uma estética que, embora nem sempre assuste, combina com a proposta e garante um entretenimento envolvente.
É nos momentos de maior fragilidade emocional que o filme revela suas melhores qualidades. Quando Bela confessa ao pai que só queria que Ursula a amasse, quando a própria Ursula se manifesta enquanto tudo desmorona e quando a menina conversa com Ruth, a narrativa alcança uma força dramática inesperada. São passagens que ampliam o significado da história para além do embate entre uma criança e uma criatura monstruosa. A simplicidade dessas cenas contrasta com a dimensão emocional que assumem, tornando ainda mais evidente como a comparação com Coraline pode obscurecer aquilo que Outra Mamãe tenta construir por conta própria.
O uso da escuridão como elemento central da atmosfera também merece reconhecimento. Ao fazer com que toda a família precise lidar com a ameaça, Rob Savage desloca o foco habitual desse tipo de história: o horror não é apenas um segredo infantil que os adultos se recusam a enxergar, mas um problema que exige o envolvimento de todos.
Tecnicamente, o filme não apresenta grandes inovações. A direção de arte, o desenho de som, a montagem e a fotografia cumprem suas funções sem alcançar resultados especialmente memoráveis. A fotografia, em particular, explora movimentos panorâmicos e direcionamentos do olhar para conduzir a atenção do espectador, mas raramente transforma esses recursos em algo visualmente extraordinário.

Jessica Chastain, Arabella Olivia Clark e Jay Duplass em cena de “Outra Mamãe”- Divulgação Universal Pictures
O que permanece, de fato, é a atuação de Chastain, que abraça o grotesco sem receio, e a camada simbólica de uma narrativa que oferece mais possibilidades de interpretação do que sua recepção inicial parece reconhecer. A paixão de Ursula por Frank, o papel paterno desempenhado por Russ e as diferentes concepções de família ajudam a compor esse conjunto de significados.
Outra Mamãe pode não ser o terror mais eficiente ou original do ano, mas apresenta reflexões interessantes e momentos de tensão genuína. Seu maior mérito está em confiar que o público é capaz de perceber os subtextos sem precisar de explicações excessivas. Talvez nunca alcance a profundidade de Coraline e o Mundo Secreto, mas isso não significa que deva ser reduzido a uma cópia inferior.
Entre sustos pouco inspirados e ideias que mereciam maior desenvolvimento, o filme de Rob Savage encontra uma identidade própria que é imperfeita e irregular, mas suficientemente interessante para justificar uma avaliação bem menos severa do que aquela que vêm recebendo.
Distribuído pela Universal Pictures, Outra Mamãe já está em cartaz nos cinemas.
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