O Caramujo africano segue se espalhando pelo Brasil. Contudo, o sal grosso eliminou todos os caracóis-gigantes-africanos em testes de laboratório realizados por pesquisadores da Universidade Federal Fluminense (UFF) e da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). O resultado, porém, dependeu do contato direto do produto com o corpo dos animais.
O estudo também avaliou sais fertilizantes, pimenta-do-reino, extrato de sementes de quiabo e niclosamida, um moluscicida comercial. Os resultados foram bem mais limitados para essas substâncias. A pesquisa foi publicada em 23 de outubro no Brazilian Journal of Biology.
O caracol-gigante-africano (Achatina fulica) é uma espécie invasora que ameaça plantações e a biodiversidade. Também pode hospedar vermes capazes de provocar doenças em humanos e animais, entre elas a meningite eosinofílica.
Como o sal grosso agiu contra o caramujo africano?
Nos experimentos, a aplicação direta de sal grosso sobre os animais provocou 100% de mortalidade. O mesmo resultado ocorreu quando o produto foi misturado ao substrato de areia.
Segundo Robson Xavier Faria, pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz e coordenador do estudo, a eficácia depende da interação entre o sal e a parte mole do molusco.
O contato provoca desidratação rápida, levando à morte do animal. Em contrapartida, soluções aquosas de sal e uma linha de sal grosso colocada no centro das caixas não provocaram mortalidade.
“Isso acontece porque, ao interagir diretamente com a parte mole dos moluscos, os sais levam a uma rápida desidratação, o que ocasiona a morte”, explica Faria.
Pimenta-do-reino e outros produtos tiveram efeito limitado
Os pesquisadores também observaram resultados modestos com outras substâncias. O sulfato de cálcio, utilizado como fertilizante, e a niclosamida eliminaram cerca de 33% dos animais testados.
A pimenta-do-reino apresentou mortalidade de 11%. Já o extrato de sementes de quiabo não demonstrou efeito sobre os caracóis.
Os testes com iscas também revelaram uma dificuldade: os animais praticamente não consumiram os produtos. Em alguns casos, chegaram a enterrá-los.
A niclosamida, que apresenta eficácia contra caramujos aquáticos, teve desempenho inferior no caracol-gigante-africano, uma espécie terrestre.
Sal pode prejudicar o solo
Apesar do resultado expressivo em laboratório, os pesquisadores alertam que o sal grosso não representa uma solução definitiva para o controle da espécie.
O produto não é seletivo e pode provocar a salinização do solo. Por isso, seu uso exige cautela, especialmente em áreas agrícolas.
Além disso, os experimentos ainda não foram realizados em condições de campo. A eficácia observada em laboratório precisa passar por novas avaliações antes de qualquer recomendação ampla de aplicação.
Pesquisa busca alternativas para o controle da espécie invasora
O estudo avaliou diferentes concentrações e formas de aplicação das substâncias. Os caracóis foram criados entre 2021 e 2022 no Laboratório de Avaliação e Promoção da Saúde Ambiental do Instituto Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro. Após cada aplicação, os pesquisadores acompanharam os animais durante 48 horas.
Entre as próximas etapas estão análises dos tecidos dos caracóis expostos à pimenta-do-reino e ao sulfato de cálcio, além de novos experimentos em campo.
Uma das possibilidades é desenvolver formulações que reduzam a quantidade de compostos ativos sem comprometer seus efeitos biológicos.
A pesquisa busca alternativas de diferentes origens, incluindo substâncias sintéticas, minerais, vegetais e produzidas por microrganismos. O objetivo é ampliar as possibilidades de controle do caracol-gigante-africano, considerando também os impactos ambientais.
Referência científica: Brazilian Journal of Biology.
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