No último dia 11 de outubro, o Vivente Andante esteve na Marina da Glória para o festival Clássicos do Brasil, onde a Nação Zumbi fez uma apresentação histórica da turnê Da Lama Ao Caos – 30 anos. Pouco antes daquele show, conversamos com exclusividade com o vocalista Jorge Du Peixe sobre o legado do álbum.
Agora, às vésperas da apresentação única da banda em São Paulo, neste sábado (25), na Audio, publicamos esse rápido e denso bate-papo sobre revisitar o passado, afrofuturismo e a assustadora atualidade das letras do disco.
Revisitando a memória afetiva de Jorge Du Peixe
Vivente Andante: Jorge, como é que foi montar essa turnê de um disco icônico? E como foi revisitar esse Da Lama Ao Caos para o público mais jovem?
Jorge Du Peixe: A gente, desde que passamos a lançar disco após disco, acho que o ouvinte… Quem tá chegando, os filhos da galera que ouviu, uma galera também nova, muito curiosa, que está sempre ávida por coisas, né? E vai ouvir o disco novo recém-lançado, acaba indo revisitar os primeiros discos. Isso é inevitível. Aí o disco ‘Da Lama ao Caos’ é o que todo mundo tem que ouvir. Quem nos ouve hoje em dia, né?
Mas assim, retomar esse disco foi legal. Mexe muita coisa naquela memória, né? Memória afetiva ali, tal, momentos bons. De tempo em tempo, a gente lembra dos tempos de gravação. Agora é o tempo de retomar o disco… já que tá na estrada… e até reativar músicas que até então não tinham ido pro palco.

Um disco à frente do seu tempo
Vivente Andante: Era um disco que usava muita tecnologia na época, como samples. Como vocês conectam isso com a nova tecnologia de agora?
Jorge Du Peixe: A gente sempre foi ávido por isso. A gente sempre falou de futurismo, afrofuturismo. Esse disco está dentro desse conceito de alguma maneira. É um disco bem à frente do seu tempo. Ouvindo hoje você descobre coisas que… sim, tem os folguedos ali, aliado à música do mundo, né? World music… não. Eu acho world music um termo pejorativo. Se você não fala inglês, automaticamente o americano está achando que é world music. É isso. Assim como a música regional também. É a música do Brasil, cara. Música que veio do Nordeste, mas é música para todos os lugares. A música não tem limites, né?
Então, a partir desse viés, foi importante retomar esse disco. Nos ensaios você percebe nuances… a ideia é trazer exatamente como ele está disposto no disco. A gente fez questão de ensaiar exatamente como está exposto no disco.
“A moeda é a mentira”
Vivente Andante: Você falou sobre como o disco parece atemporal, e ele ainda fala com o Brasil de hoje. Logo na primeira faixa, Banditismo Por Uma Questão de Classe… [neste momento, Jorge Du Peixe sinaliza que é sua música favorita também] …ele ainda fala sobre violência policial, preconceito. As letras seguem muito atuais. Como você enxerga esse Brasil que ainda se conecta com essas canções?
Jorge Du Peixe: São muitas questões para resolver. E hoje em dia existem ferramentas que propagam coisas que não existem. A gente vive uma época onde a moeda é a mentira, né, cara? Subterfúgios. A política é jogada de uma maneira como nunca foi jogada antes. Com mais ferramentas para se ludibriar. Enfim. E hoje em dia a gente tem um fator louco que é a religião no meio de tudo isso, né? Eu acho que se arrebanha um povo e coloca outra situação. O político hoje está na religião e, às vezes, é um ex-policial que virou pastor… é uma parada muito profunda, né?
Existem estudos e estudos sobre sobre polícias e milícias e malícias. Então, é um assunto muito delicado. A gente sabe disso, que envolve muito interesse, como sempre. Já se via isso. A violência no Nordeste sempre foi uma parada. E hoje a gente vê a nível nacional.
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