Três expulsões, acusação de assédio e saída médica colocam o reality no centro da discussão sobre regulação emocional e cultura de vigilância
A sucessão de episódios extremos transforma o Big Brother Brasil em um retrato intenso das fragilidades emocionais contemporâneas. Em menos de dois meses, o BBB 26 registra três expulsões por agressão, uma desistência após acusação de assédio, uma saída por convulsões e uma nova discussão acalorada entre Ana Paula Renault e Alberto Cowboy. Além da virada de chave de Babu Santana. O acúmulo de ocorrências desloca o debate do entretenimento para a saúde mental e a cultura de vigilância social.
Henri Castelli deixa o programa logo no início após apresentar duas convulsões. Pedro Henrique aperta o botão de desistência horas depois de ser acusado de assediar Jordana. Paulo Augusto, Sol Vega e Edilson Capetinha são expulsos por agressões. No episódio mais recente, Ana Paula Renault parte para cima de Alberto Cowboy após ele citar o pai da participante durante uma discussão. Ela é contida por colegas e, ao final do confronto, amassa o chapéu do rival.
A recorrência de conflitos levanta uma questão central: o que sustenta comportamentos tão intensos em um ambiente de convivência televisionado e permanentemente vigiado?
Confinamento, exposição, cancelamento e retirada de validação
Para Êdela Nicoletti, especialista em Terapia Comportamental Dialética, o ambiente é determinante.
“Comportamento é função do ambiente. O BBB reúne confinamento, exposição pública permanente e pressão social contínua. Esse conjunto aumenta a vulnerabilidade emocional e reduz a margem para autorregulação.”
Vinícius Guimarães Dornelles, integrante da diretoria da Associação Mundial em DBT, contextualiza o momento social.
“Vivemos uma cultura de maior sensibilidade social para temas como assédio, violência e microagressões. O público reage com velocidade e cobra posicionamento imediato. A produção responde com mais rigor. Os limites sociais estão mais claros e a expectativa de responsabilidade individual também.”
DBT é a sigla para Terapia Comportamental Dialética (do inglês Dialectical Behavior Therapy).
É uma abordagem da psicologia criada pela psicóloga norte-americana Marsha M. Linehan, inicialmente para tratar pessoas com transtorno de personalidade borderline, mas hoje aplicada a diversos quadros relacionados à desregulação emocional.
A DBT trabalha justamente essa integração: aceitar a realidade como ela é enquanto se desenvolvem habilidades para transformá-la.
Também é aplicada em contextos de alta pressão emocional, conflitos interpessoais frequentes e dificuldades de tolerar frustração.
Ela parte da ideia de que algumas pessoas têm maior vulnerabilidade emocional biológica e, quando inseridas em ambientes invalidantes ou altamente estressores, apresentam maior risco de desregulação.
Em resumo, a DBT é uma abordagem estruturada e baseada em evidências científicas que ensina habilidades concretas para lidar com emoções intensas, conflitos e impulsividade.
Segundo Êdela, há uma mudança no perfil psicológico contemporâneo. “Muitos participantes vêm de um ambiente de validação digital constante. Curtidas e seguidores funcionam como reguladores emocionais externos. Quando o confinamento remove esse reforço de forma abrupta, a pessoa precisa acessar habilidades internas de regulação. Se essas habilidades não foram treinadas, a impulsividade aumenta e a tolerância à frustração diminui.”
Vinícius complementa com base na teoria biossocial da DBT.
“Vulnerabilidade emocional combinada com ambiente estressor gera maior probabilidade de desregulação. O confinamento intensifica estímulos, reduz pausas e amplia conflitos.”
BBB – Reality como amplificador social
A convivência contínua também funciona como catalisador de disputas. “Ambientes fechados ativam padrões de pertencimento e hierarquia. O cérebro interpreta risco de exclusão como ameaça à sobrevivência social. Nessas condições, a mente emocional assume o comando com mais facilidade”, explica Êdela.

Para Vinícius, a própria estrutura do programa potencializa respostas intensas. “Conflito gera audiência. Intensidade gera engajamento. Quando milhares de pessoas disputam vaga e passam por filtros tecnológicos, perfis com alto potencial de repercussão tendem a ganhar destaque.”
As mudanças na direção e na aplicação das regras também alteram as chamadas contingências comportamentais, reforçando ou punindo determinados padrões. Na lógica da análise comportamental, ajustes nessas contingências produzem ajustes nas respostas dos participantes.
Para os especialistas, o BBB26 evidencia tendências que já estão presentes fora da casa. A sociedade demonstra maior expectativa de responsabilização e menor tolerância a comportamentos violentos, ao mesmo tempo em que enfrenta o desafio coletivo de sustentar regulação emocional sob pressão intensa.
“O BBB funciona como amplificador social. Ele torna visível aquilo que já acontece fora dali”, conclui Vinícius.
“A grande questão não é apenas quem será expulso. É o quanto estamos preparados para lidar com frustração, limite e exposição em um mundo cada vez mais reativo”, finaliza Êdela.
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