A Copa do Mundo costuma reunir famílias inteiras diante da televisão, mas, além da emoção dos jogos e da paixão pelo futebol, o torneio pode representar uma oportunidade valiosa para estimular o desenvolvimento da fala e da linguagem das crianças.
Segundo a fonoaudióloga infantil Adriana Fiore, momentos de interação compartilhada, como assistir às partidas em família, favorecem a ampliação do vocabulário, a construção da comunicação e o fortalecimento dos vínculos afetivos.
“A linguagem cresce quando a criança participa das interações. A Copa oferece exatamente isso: emoção, repetição, significado e troca afetiva. Quando os adultos comentam o jogo, fazem perguntas e conversam sobre o que está acontecendo, transformam aquele momento de lazer em uma experiência rica para o desenvolvimento da comunicação”, explica a especialista.
Durante o torneio, palavras como “gol”, “torcida”, “campeão”, “juiz”, “falta” e “defesa” passam a fazer parte das conversas e das brincadeiras infantis. Para Adriana, essa repetição, associada ao diálogo, contribui diretamente para o aprendizado.
“A criança aprende quando alguém conversa com ela, espera sua resposta e amplia aquilo que ela tentou dizer. Não basta apenas assistir ao jogo. O importante é participar socialmente daquela experiência”, afirma.
Além do vocabulário, a Copa pode estimular habilidades como atenção compartilhada, memória auditiva, compreensão verbal, organização do pensamento e capacidade de expressar opiniões e emoções.
“Quando os pais perguntam quem fez o gol ou qual time está ganhando, a criança começa a organizar ideias, construir frases e compreender melhor o funcionamento das conversas. São competências fundamentais para a aprendizagem futura”, destaca.
Segundo a especialista, os benefícios alcançam crianças de diferentes faixas etárias. Nos primeiros anos de vida, considerados decisivos para o desenvolvimento da linguagem, os bebês também são impactados pelas músicas, expressões faciais, gestos e reações emocionais dos adultos.
“Com os menores, podemos cantar, apontar objetos e nomear situações. Já com as crianças maiores, é possível estimular perguntas, conversas, desenhos de bandeiras, leitura e até a criação de tabelas com os resultados dos jogos”, orienta.
Entre as atividades sugeridas estão narrar as jogadas, perguntar para qual seleção a criança está torcendo, brincar de locutor esportivo e incentivar que ela conte o que aconteceu durante a partida.
“O segredo é transformar a criança em participante da experiência. Quanto mais ela fala, pergunta, responde e compartilha esse momento com a família, maiores são os ganhos para o desenvolvimento da linguagem”, ressalta.
Atenção aos excessos durante a torcida da Copa do Mundo
Se a Copa favorece a comunicação, a empolgação também exige alguns cuidados com a saúde vocal das crianças. Gritos frequentes, cantorias prolongadas e a tentativa de competir com o volume alto da televisão podem provocar esforço vocal e episódios de rouquidão.
“Torcer faz parte da infância e cria memórias afetivas importantes, mas a voz da criança também precisa ser preservada. Ela pode vibrar, cantar e comemorar sem precisar gritar o tempo todo”, alerta Adriana.
A recomendação é manter a hidratação adequada, evitar ambientes excessivamente barulhentos e incentivar momentos de descanso após períodos de maior empolgação.
A especialista chama atenção ainda para casos de rouquidão persistente.
“Se a criança fica rouca após um jogo e a voz melhora rapidamente, geralmente não há motivo para preocupação. Mas, quando a rouquidão dura vários dias, acontece com frequência ou há esforço para falar, é importante buscar avaliação especializada”, explica.
Para Adriana, um erro comum é considerar normal que crianças apresentem rouquidão frequente.
“Muitas famílias acreditam que a voz rouca faz parte da personalidade da criança, mas isso não é verdade. Em alguns casos, pode indicar abuso vocal ou alterações nas pregas vocais que precisam ser investigadas”, conclui.
Sobre a especialista
Dra. Adriana Fiore é fonoaudióloga (CRFa 2-12078), mestre em Distúrbios da Comunicação pela PUC-SP, pós-graduada em Processamento Auditivo Central e especialista em Voz pelo Centro de Estudos da Voz (CEV). Também é idealizadora e diretora da AplusKids.
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