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Joel Edgerton em cena de "Sonhos de Trem"- Divulgação NETFLIX
Cinema e StreamingCrítica

Crítica: ‘Sonhos de Trem’ é sobre seguir em frente quando tudo já foi perdido

Por
André Quental Sanchez
Última Atualização 29 de janeiro de 2026
6 Min Leitura
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Joel Edgerton em cena de "Sonhos de Trem"- Divulgação NETFLIX
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Dirigido por Clint Bentley, Sonhos de Trem se vale da contemplação e da intimidade para retratar a dor e a perseverança exigidas na busca pelo sonho americano.

Curiosamente, entre os indicados a Melhor Filme no Oscar 2026, dois títulos discutem a busca do sonho americano por caminhos bastante distintos. Enquanto Marty Supreme (2025, Josh Safdie) aposta no caos e na figura de seu protagonista para sugerir que correr atrás dos próprios sonhos pode, em alguma medida, levá-los à realização, Sonhos de Trem adota um retrato frio da realidade e uma poesia intimista para observar a perseverança daqueles que são constantemente testados, e lutam diariamente por uma vida estável.

Ao narrar a história do lenhador Robert Grainier com uma narração que remete às fábulas e contos de outrora, o filme encontra na fotografia do brasileiro Adolpho Veloso uma extensão emocional de seu protagonista. Enquadramentos fechados, uso expressivo da luz natural e paisagens grandiosas constroem uma poesia visual constante, marcada por um sentimento de proximidade que dialoga com a própria experiência de Veloso, também frequentemente distante de casa por conta do trabalho, e que sente saudades e falta de sua terra.

Embora seja um forte concorrente ao Oscar de Melhor Direção de Fotografia, a produção vai além da força estética. A trilha sonora desempenha papel central ao conduzir o espectador por uma ampla gama de emoções, da alegria à melancolia, e reforça a sensação de que Robert não merecia a vida de provações que lhe foi imposta. Ainda assim, o filme parece sugerir que não escolhemos aquilo que nos atinge: o destino se impõe com uma consciência e um poder que escapam ao nosso controle.

Joel Edgerton e Felicity Jones em cena de "Sonhos de Trem"- Divulgação NETFLIX

Joel Edgerton e Felicity Jones em cena de “Sonhos de Trem”- Divulgação NETFLIX

Sem grandes catarses ou tensões dramáticas, Sonhos de Trem é, acima de tudo, um filme contemplativo que remete aos melhores trabalhos de Terrence Malick. Pode soar cansativo para alguns espectadores, mas é inegável a emoção transmitida tanto pela atuação contida de Joel Edgerton quanto, em menor escala, pela força silenciosa da personagem de Felicity Jones. Em detalhes como o uso de macacões, o manuseio de armas e a iniciativa de chamar Robert para conversar, a personagem conquista rapidamente a empatia do público, que passa a torcer por essa mulher livre e determinada, e a sofrer com a falta dela a partir do segundo ato.

No retrato da rápida transformação dos Estados Unidos no início do século XX, sempre filtrada pelo olhar melancólico e passivo de Robert, Sonhos de Trem recorre a um realismo mágico para dar forma aos arrependimentos e dores do passado. Assim como Prudencio Aguilar assombra José Arcadio em Cem Anos de Solidão (1967, Gabriel Garcia Márquez), Robert é perseguido por lembranças que insistem em lembrá-lo de seus erros.

O colega chinês morto na companhia em que trabalhava, a família perdida enquanto ele estava distante e até o temor irracional de que ambos ainda possam estar vivos, são dores que o acompanham constantemente. Esses fantasmas ganham ainda mais peso por meio de um desenho de som imersivo, que preenche o ambiente e reforça o tormento interno do protagonista, um trabalho que, também merecia um maior reconhecimento da Academia.

Joel Edgerton e Felicity Jones em cena de "Sonhos de Trem"- Divulgação NETFLIX

Joel Edgerton e Felicity Jones em cena de “Sonhos de Trem”- Divulgação NETFLIX

Assim como Hamnet (2026, Chloé Zhao), Sonhos de Trem aposta na experiência sensorial e emocional. A diferença é que, enquanto o filme de Zhao direciona constantemente o espectador à dor, a obra de Bentley oferece maior liberdade emocional, permitindo que cada um escolha como e quando sentir. O resultado é uma jornada mais lúdica, passiva e poética, que culmina em um desfecho sereno: quando Robert finalmente encontra paz, cercado pela natureza que sempre o acompanhou, a emoção surge de forma inevitável, sendo a música de Nick Cave somente um complemento para toda a história.

Em sua lenta e delicada reflexão sobre a vida e sobre como lidamos com o cotidiano, Sonhos de Trem nos lembra que memórias permanecem no passado e que o futuro foge ao nosso controle. Resta, portanto, aproveitar cada instante e não temer o ato de sentir, afinal, nunca sabemos quanto tempo um momento pode durar.

Disponível na Netflix, Sonhos de Trem concorre ao Oscar 2026, incluindo uma indicação para o brasileiro Adolpho Veloso que tem nossa torcida na cerimônia do dia 15 de Março de 2026.

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