O impacto da guerra no Oriente Médio começa a redesenhar o turismo global, mas o efeito mais visível não está apenas na queda de voos ou no aumento das passagens — e sim na mudança de comportamento do viajante. Em vez de longas viagens internacionais, cresce a busca por destinos mais próximos, colocando o Brasil e a América do Sul no centro desse novo movimento.
Com a redução de rotas aéreas na região em conflito e o aumento dos custos operacionais, viajar para destinos mais distantes se torna menos previsível e, muitas vezes, mais caro. O resultado é uma reconfiguração do mapa turístico, com destaque para viagens regionais.
Um dos principais fatores por trás dessa mudança é o aumento do querosene de aviação (QAV), que já subiu cerca de 64% desde o início do conflito, segundo dados da Petrobras. Como o combustível é atrelado ao dólar e ao mercado internacional, a instabilidade impacta diretamente o preço das passagens.
Esse cenário torna viagens intercontinentais mais caras e menos atrativas, especialmente para turistas que buscam previsibilidade de custos. Ainda que a recente queda do dólar alivie parte da pressão, o efeito acumulado mantém os preços elevados.
Turismo regional ganha protagonismo
Com isso, destinos mais próximos passam a ser priorizados. Países da América do Sul e regiões dentro do próprio Brasil surgem como alternativas naturais — tanto pelo custo quanto pela logística.
Segundo Cláudia Brito, da Coris, essa mudança já é perceptível no comportamento do público:
“Existe um outro movimento de busca por viagens mais próximas, como América do Sul e Caribe, que passam uma sensação maior de segurança neste momento”.
A preferência por viagens regionais envolve menos conexões, menor tempo de deslocamento e menor exposição a imprevistos — fatores decisivos em um cenário de incerteza.
Brasil se fortalece como destino
Nesse contexto, o Brasil ganha vantagem competitiva. Com diversidade de destinos, grande extensão territorial e infraestrutura turística consolidada em várias regiões, o país se posiciona como uma alternativa viável tanto para brasileiros quanto para turistas estrangeiros.
Além disso, o turismo interno tende a crescer, impulsionado por custos mais controláveis e maior flexibilidade de planejamento.

A lógica é simples: diante de um cenário global instável, viajar dentro do próprio país ou para regiões próximas reduz riscos e facilita ajustes de última hora.
Mudança no comportamento do viajante
O momento atual evidencia um padrão já conhecido na economia do turismo.
Como explica o professor Mário Marques, da SKEMA Business School:
“O QAV é fortemente atrelado à paridade internacional e ao dólar, o que tende a gerar um repasse relativamente rápido às tarifas aéreas”.
Ele aponta ainda um efeito claro no comportamento do consumidor:
“Estamos diante de um efeito substituição clássico: o consumidor não deixa de viajar, mas migra para modais de menor custo”.
Isso inclui desde a escolha por destinos mais próximos até a preferência por viagens rodoviárias em alguns casos.
Impacto já é significativo no setor
O impacto da crise no turismo global já chega a cerca de US$ 600 milhões por dia no Oriente Médio, segundo estimativas do setor. Além da queda na demanda, há aumento de cancelamentos, remarcações e custos operacionais.
Ou seja, não se trata apenas de uma mudança de intenção de viagem, mas de um impacto direto em quem já tinha planos definidos.
Um novo mapa do turismo em 2026
Mais do que uma retração, o que se observa é uma redistribuição do fluxo turístico. Destinos considerados mais seguros, acessíveis e previsíveis ganham espaço, enquanto regiões afetadas por instabilidade perdem força no curto prazo.
Nesse cenário, o Brasil e a América do Sul deixam de ser apenas alternativas e passam a ocupar um papel central nas escolhas de viagem.
Para o setor, o desafio é acompanhar essa mudança com oferta, infraestrutura e estratégias adaptadas. Para o viajante, a oportunidade está em redescobrir destinos mais próximos — com menos risco e, muitas vezes, mais conexão com a própria realidade.
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