Dirigido por Ali Asgari, A Bit Of Light acompanha um homem convencido de que chegou ao fim quando, na verdade, ainda não percebeu tudo o que o mantém de pé
Em determinado momento de A Bit Of Light, lembrei-me de Sonhar com Leões (2024, Paolo Marinou-Blanco). Os dois filmes partem de uma premissa semelhante: protagonistas que desejam morrer e enxergam o suicídio como uma possível saída para o sofrimento. A diferença, porém, está justamente na maneira como cada personagem encara essa decisão. Enquanto a personagem de Denise Fraga demonstra uma espécie de cinismo e segurança diante da própria morte, Arash, por outro lado, carrega desde a primeira cena uma dor evidente, mas também uma hesitação que o filme jamais tenta esconder.
Seu primeiro objetivo é simples: antes de morrer, precisa se desfazer da própria vida. E é justamente aí que A Bit Of Light encontra um inesperado senso de humor. Arash começa a distribuir seus bens, livrando-se de plantas, do carro e até do gato, como se estivesse realizando uma espécie de inventário afetivo antes de desaparecer. Há algo de involuntariamente engraçado nesse processo, mas o humor nunca diminui a gravidade da situação. Pelo contrário: quanto mais Arash tenta eliminar os vestígios materiais de sua existência, mais evidente se torna a quantidade de vínculos que ainda o prende ao mundo.
Estruturado a partir de quatro encontros antes da tentativa definitiva, o filme poderia facilmente cair em uma fórmula episódica. Ali Asgari, porém, transforma essa estrutura em um exercício de contemplação. Longos planos estáticos, silêncios prolongados, paisagens e ações aparentemente banais passam a carregar um peso desproporcional. Um carro, uma refeição, uma conversa interrompida ou simplesmente alguém olhando para Arash durante alguns segundos tornam-se acontecimentos dramáticos. O cotidiano deixa de ser pano de fundo e passa a funcionar como uma espécie de argumento contra a morte.

Cena de A Bit Of Light- Divulgação Mostra SP
É nesse uso do silêncio que Asgari encontra uma de suas maiores forças. Como a trilha sonora é essencialmente diegética, o silêncio se torna quase um personagem. E, sobretudo, nunca é exatamente o mesmo. O silêncio de Arash procurando uma receita médica em seu antigo escritório possui uma tensão diferente daquele presente em um jantar desconfortável com a família. Este, por sua vez, não se parece em nada com o silêncio de um jantar mais leve, no qual as mesmas pessoas compartilham o mesmo espaço sem necessariamente saber o que dizer.
Asgari compreende que silêncio também é linguagem, e que em uma história sobre alguém que deseja desaparecer, aquilo que não é dito pode ser muito mais importante do que qualquer discurso.
O ritmo quase imóvel de A Bit Of Light pode afastar quem espera uma narrativa mais convencional, mas é justamente nessa lentidão que o filme encontra sua força. A mãe que pede que Arash a acompanhe ao médico, as irmãs que simplesmente o observam, os pequenos constrangimentos familiares e os encontros que parecem não levar a lugar algum vão construindo, pouco a pouco, um retrato de alguém que perdeu a capacidade de enxergar a própria importância. O curioso é que essas situações, embora mínimas, permanecem na memória. Em menos de 90 minutos, Asgari consegue fazer com que acontecimentos aparentemente banais adquiram uma dimensão emocional considerável.
A maior fragilidade do filme, contudo, também está em sua simplicidade. Sonhar com Leões utiliza o desejo de morrer para discutir diretamente o direito à morte, enquanto A Bit Of Light segue por um caminho mais sentimental. Sua estrutura remete inevitavelmente a A Felicidade Não Se Compra (1947, Frank Capra): um homem convencido de que sua existência perdeu o sentido precisa reencontrar, através dos outros, as razões para continuar vivendo. Asgari atualiza essa ideia com uma encenação minimalista e uma sensibilidade particular, mas não consegue escapar completamente da previsibilidade de sua conclusão.

Misagh Zareh em cena de A Bit Of Light- Divulgação Mostra SP
Ainda assim, há algo genuinamente poderoso na maneira como A Bit Of Light transforma uma narrativa sobre o desejo de morrer em uma observação delicada sobre aquilo que permanece quando alguém acredita que já não resta nada. O filme não precisa de grandes acontecimentos para fazer Arash reconsiderar sua própria existência; basta colocá-lo novamente diante das pessoas, dos lugares e dos pequenos gestos que ele havia deixado de enxergar.
Ao final, A Bit Of Light talvez não diga nada particularmente novo sobre a vontade de morrer ou sobre a importância de continuar vivendo. Mas encontra beleza justamente em lembrar que, muitas vezes, aquilo que nos mantém vivos não é uma grande razão, e sim uma sucessão de pequenas coisas que aprendemos a ignorar. E talvez seja essa a sua maior luz: mostrar que, mesmo quando alguém acredita ter chegado ao fim, a vida ainda pode estar acontecendo nos detalhes que ficaram para trás.
Distribuído pela Imovision e participante da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, A Bit Of Light terá sessões durante o evento, que acontece entre 15 e 29 de outubro de 2026.
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