Dirigido por Jason Jacobs e Devon Delmar, Variations on a Theme transforma a repetição em uma ferramenta de poesia e crítica para retratar um sistema que, ao invés de cuidar das pessoas, parece existir justamente para perpetuar suas dores.
Desde os primeiros minutos, Variations on a Theme dissolve rapidamente as fronteiras entre documentário e ficção. Imagens de arquivo apresentam a história de soldados sul-africanos enviados para lutar durante a Segunda Guerra Mundial e que, posteriormente, nunca receberam o pagamento que lhes era devido, alguns, inclusive, teriam recebido apenas bicicletas. É a partir dessa ferida histórica que acompanhamos uma cuidadora de cabras prestes a completar 80 anos, ainda aguardando ansiosamente por um dinheiro que acredita ser seu por direito.
O público sabe que tudo não passa de um golpe. O curioso é que ninguém parece perceber isso naquele pequeno vilarejo. Ao longo de cinco capítulos, acompanhamos diferentes moradores e suas rotinas: um homem que cava o chão de sua própria casa ao som de Beethoven por acreditar que encontrará diamantes; a cuidadora de cabras; uma mãe cuja filha de apenas 15 anos está grávida; um cabeleireiro que já gastou um dinheiro que sequer recebeu; um homem que dorme para tentar esquecer as dores nas costas, entre tantos outros. São personagens presos a uma rotina em que esperar parece ser a única possibilidade.
E Variations on a Theme pode ser definido por uma palavra: cíclico.

Cena de “Variations on a Theme”- Divulgação Mostra SP
O despertar, os sons, os enquadramentos, os movimentos de câmera e até mesmo determinadas ações retornam constantemente, criando uma estrutura deliberadamente repetitiva. É justamente por isso que as pequenas alterações ganham uma dimensão enorme. Um gesto diferente, uma fala inesperada ou uma mudança mínima na rotina passa a chamar atenção como se fosse um acontecimento extraordinário. Aos poucos, o espectador deixa de apenas observar aqueles moradores e começa a experimentar a sensação de estar preso ao mesmo cotidiano que os aprisiona.
Essa repetição também aproxima o filme da tradição oral. Um narrador onisciente acompanha os acontecimentos e fortalece a delicada fronteira entre ficção e documentário, ao mesmo tempo em que transforma aquelas histórias em uma espécie de memória coletiva. Existe um cuidado evidente na maneira como os diretores observam seus personagens: suas perdas, dores, esperanças e pequenas alegrias nunca são tratadas como meros elementos de uma trama. O filme parece interessado, acima de tudo, em escutá-los.
Não existem grandes catarses. Pelo contrário: Variations on a Theme constrói-se a partir de ações pequenas, prolongadas muito além do que o cinema tradicionalmente consideraria necessário. Em determinados momentos, a experiência pode parecer enfadonha, repetitiva e até mesmo sisífica. Mas essa sensação é fundamental. O tédio não é um acidente de percurso; é parte da linguagem. É a tradução cinematográfica de uma existência marcada pela espera, pela burocracia e pela impossibilidade de romper um ciclo.

Cena de “Variations on a Theme”- Divulgação Mostra SP
Felizmente, os 65 minutos de duração impedem que essa proposta se torne excessivamente exaustiva. O tempo é preciso tanto para o espectador quanto para os próprios personagens: suficiente para compreendermos aquele cotidiano sem transformar sua repetição em um exercício interminável.
Ao lado dos personagens, os animais também observam. E existe um silêncio constante. Uma festa que termina quase como um enterro, dores que permanecem contidas e um realismo mágico que permite ao filme tratar a burocracia e o absurdo com a mesma naturalidade com que seus personagens enfrentam o cotidiano. Nada precisa ser acelerado. Nada precisa ser explicado em excesso. Os moradores simplesmente continuam vivendo.
Essa sensação é reforçada pelo elenco, formado em grande parte por atores não profissionais, entre eles, a própria avó de um dos diretores. A escolha acrescenta uma camada de autenticidade à obra sem transformar seus personagens em meros instrumentos de uma representação documental. Eles parecem existir antes e depois da câmera, carregando consigo histórias que o filme apenas consegue tocar.

Cena de “Variations on a Theme”- Divulgação Mostra SP
Desculpas, silêncios, respostas que nunca chegam e uma tristeza que paira sobre o vilarejo como uma nuvem negra. Tudo isso transforma Variations on a Theme em uma espécie de poesia cinematográfica construída a partir da ausência. Há momentos cômicos, outros profundamente dolorosos e uma melancolia permanente, mas a força do filme está justamente nessa convivência entre sentimentos aparentemente opostos.
No fim, Variations on a Theme não oferece consolo, e talvez esse seja seu gesto mais honesto. Em vez de tentar solucionar as dores de seus personagens, o filme as demarca. Escuta seus silêncios, acompanha seus movimentos e registra uma rotina que, por mais sofrida que seja, também representa a única forma de constância que eles conhecem.
Talvez o mais doloroso seja justamente perceber que aquele ciclo pode nunca terminar. E é nessa repetição, entre a espera por um dinheiro que provavelmente nunca virá e a continuidade de uma vida que precisa seguir mesmo assim, que Jason Jacobs e Devon Delmar encontram uma forma silenciosa, amarga e profundamente humana de fazer cinema.
Participando da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, Variations on a Theme terá sessões durante o evento, que acontece entre 15 e 29 de outubro de 2026.
Siga-nos e confira outras notícias @viventeandante e no nosso canal de whatsapp!



