Dirigido por Emilie Blichfeldt, A Meia Irmã Feia surge como a adaptação mais fiel e mais perturbadora do conto original da Cinderela.
Há narrativas que se tornam parte de quem somos, e Cinderela é uma delas. Seja na versão dos Grimm, na doçura da Disney ou na subversão de Para Sempre Cinderela (1998, Andy Tennant), a história da Gata Borralheira se cristalizou como uma das fundações simbólicas do cinema moderno: o arquétipo da heroína injustiçada, a ascensão pela pureza e o triunfo do amor. Não por acaso, seus ecos se espalham até em obras contemporâneas como Anora (2024, Sean Baker), permitindo que se destaquem não por uma adaptação fiel, mas, por uma virada do avesso em questão temática e estilística, como é o caso de A Meia Irmã Feia, que faz isso com coragem e brutalidade.
A produção norueguesa é uma reinvenção que abraça o horror sem concessões. Blichfeldt não teme o grotesco, o sexual ou o escatológico, em níveis que lembram A Substância (2024, Coralie Fargeat), construindo um mundo onde a beleza apodrece sob o verniz das aparências. A fotografia, ora onírica, ora implacavelmente suja, ilumina corpos e ambientes com a frieza das velas, ou uma luz natural seca e que não enaltece ninguém, enquanto o figurino e a direção de arte evocam uma Idade Média sem glamour, repleta de textura, simbolismos e sujeira.

Lea Myren em “A Meia Irmã Feia”- Divulgação Mares Filmes
A história segue Elvira, a meia-irmã bondosa de uma Cinderela que não é pura como as versões que conhecemos, e sim uma princesa que é flagrada em um ato sexual com o tratador de cavalos, e assim sendo obrigada a trabalhar no castelo. Elvira, ao contrário, deseja o amor do príncipe Julian e se submete a uma transformação física e espiritual aterradora: costura cílios, mutila-se, engole uma tênia para emagrecer, tudo filmado sem pudor por Emilie Blichfeldt, mas também sem gratuitidade, afinal, a dor é o preço da beleza, e a beleza é a máscara do sofrimento.
Como The Boys (2019, Eric Kripke) fez com os super-heróis, A Meia Irmã Feia destrói o mito do conto de fadas. Neste universo, o príncipe não é nobre, Cinderela não é santa, e a alma genuinamente bondosa, Elvira, é esmagada pela lógica perversa do desejo e da aparência. A produção alterna momentos de riso nervoso com um desconforto físico constante, e, ao fim, o que resta é a compaixão pelo monstro que nunca quis ser monstro, enquanto percebemos como ela decaiu.
Blichfeldt ambienta sua narrativa em uma Idade Média tardia, mas recheada de anacronismos: um espelho moderno, um gesto contemporâneo, uma palavra deslocada, não se tratando de erros, mas de intenção narrativa, demonstrando que noções como padrões de beleza e as violências do corpo feminino são atemporais e buscando uma autenticidade emocional antes da temporal.

Lea Myren e Isac Calmroth em “A Meia Irmã Feia”- Divulgação Mares Filmes
É difícil enquadrar A Meia Irmã Feia em um único gênero, afinal, ele não é puramente horror, nem comédia, tampouco drama, sendo um espetáculo visual radical, uma fábula suja sobre o amor próprio e a crueldade da expectativa social, fugindo das versões adocicadas do conto, e mostrando sangue, sujeira e sêmen, unindo o grotesco e o belo em uma rica jornada.
Ao final, resta a sensação de tragédia inevitável. Sabemos desde o início quem venceria, mas ainda assim lamentamos quem perdeu, e as escolhas equivocadas de uma Elvira que sofreu tanto nas mãos da mãe, ao invés de buscar apoio na única pessoa que realmente a amou: sua irmã Alma.
Fiel às raízes sombrias dos Irmãos Grimm, A Meia Irmã Feia transforma o conto em uma experiência visceral, escatológica e surpreendentemente divertida, um verdadeiro “e se…” sobre uma história que carregamos no inconsciente coletivo desde a infância, trazendo uma montanha russa emocional, que não é tão política ou politicamente correta, e sim um seco e grotesco retrato de uma história que já tinha passado da hora de ser vista sobre esta luz tão carnal, violenta, suja e acima de tudo: humana.
Distribuído pela Mares Filmes, A Meia Irmã Feia estreia nos cinemas no dia 23 de Outubro, em cópias dubladas e legendadas.
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