Dirigido por Iván Fund, A Mensageira é um espetáculo que mergulha na poesia e nos simbolismos de uma pequena família, ainda que por vezes careça de maior coragem para explorar seus próprios caminhos.
Quando se opta por uma escolha estética de manter o preto e branco ao longo de toda uma produção, não se torna apenas um detalhe técnico, mas um elemento essencial da experiência cinematográfica. Este “pequeno fato” que antes era uma limitação do cinema, hoje funciona como linguagem: imprime ao filme uma atmosfera de nostalgia, mistério e lirismo, guiando o olhar do espectador e moldando sua percepção de maneira decisiva, algo essencial para A Mensageira.
A trama acompanha Anika, uma jovem com a suposta habilidade de se comunicar com animais. Explorando esse dom, seus tutores a levam em uma jornada itinerante pelo país, transformando sua capacidade em fonte de renda. Nesse processo, a infância da garota é negligenciada, enquanto ela oferece conforto aos outros sem jamais encontrar o seu próprio.
Com ritmo deliberadamente lento, o filme alterna entre diálogos extensos e silêncios carregados de significado. Essa cadência evidencia o abismo emocional entre Anika e seus cuidadores, que a enxergam apenas como instrumento de lucro. A fotografia reforça essa sensação: os enquadramentos em preto e branco valorizam rostos, gestos e texturas, evocando, em certos momentos, a força imagética de retratos documentais.

Marcelo Subiotto em cena de “A Mensageira”- Divulgação Festival do Rio
Ao longo de seus quase 90 minutos, a obra evita arcos narrativos tradicionais. Inserido em um cinema contemplativo e naturalista, é estruturado uma sucessão de situações cotidianas, sem início ou fim claramente definidos. Essa abordagem pode fascinar uma parcela do público, enquanto afasta outra, menos disposta a se envolver com uma narrativa fragmentada e introspectiva.
A repetição da jornada da família assume um caráter quase sisífico, levando o espectador a questionar constantemente a exploração de Anika, e o seu lugar no mundo que parece tão grande, solitário e ao mesmo tempo tão puro. Essa inquietação parte mais de um impulso moral do público do que de uma intenção de resolução por parte da obra. Este misto de sensações permanece, e é justamente nele que A Mensageira encontra sua força.
Pouco importa, ao final, se o dom de Anika é real. O que se destaca é o consolo que ela oferece aos outros: um conforto que lhe é negado dentro de sua própria família. Essa ironia poderia ganhar mais potência em uma estrutura dramática mais convencional, mas a escolha por um caminho mais poético e contemplativo delimita o alcance da narrativa, da mesma forma que torna muito mais lúdico a jornada e o olhar que ele faz perante o mundo.

Anika Bootz em cena de “A Mensageira”- Divulgação Festival do Rio
Assim, A Mensageira se apresenta como uma fábula sobre empatia e sobre o lugar que ocupamos não somente em nossa vida, mas de outros ao nosso redor. Entre paisagens áridas, silêncios prolongados e uma câmera introspectiva, acompanhamos uma jornada que parece não ter fim, nem para seus protagonistas e nem para sua audiência que espera algo diferente.
A atuação contida de Anika Bootz e a trilha sonora, que ironicamente inclui “You’re Always on My Mind”, funcionam como o toque final de uma obra que, com delicadeza, questiona nossa capacidade de conexão com tudo ao nosso redor, mas que poderia ter se utilizado de uma melhor estrutura dramática para não cair no buraco que inevitavelmente cai: a poesia pela poesia.
Distribuído pela Filmes do Estação, A Mensageira estreia nos cinemas no dia 19 de março.
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